Diário de Astel

Astel Nightshade

Capítulo 1

Coisas Pequenas

O sol já estava alto demais para aquela hora.

Eu percebi isso antes mesmo de abrir a porta de casa. Havia um tipo de claridade que não pedia licença. Ela entrava pelas frestas da madeira, atravessava a cozinha, tocava a mesa, os bancos, o chão gasto perto do fogão, e parecia dizer que o dia tinha começado muito antes de mim.

O que era injusto, porque eu tinha acordado antes das galinhas.

Peguei o balde de ração perto da porta e saí sem fazer barulho. Ou tentei sair sem fazer barulho. A dobradiça rangeu do mesmo jeito que rangia todas as manhãs havia anos, como se tivesse feito um juramento pessoal contra qualquer tentativa minha de discrição.

Parei, olhei para trás.

Nada.

Orfina continuava dormindo. Os meninos também, por milagre ou exaustão. Com Skoll e Hati, as duas coisas eram quase sempre a mesma.

Lá fora, o ar tinha cheiro de terra seca, palha e folhas quentes. A fazenda se espalhava ao sul de Prymp como algo que não era grande, mas era nosso. A cerca precisava de conserto em dois pontos. O telhado do celeiro tinha uma telha frouxa que eu vinha prometendo arrumar havia três dias. Um dos canteiros de repolho estava crescendo melhor do que eu esperava, e o outro, pior do que eu precisava.

As galinhas me viram e decidiram que eu era a coisa mais importante do mundo.

Por alguns segundos, ao menos.

Depois provavelmente esqueceriam.

— Bom dia para vocês também — murmurei.

Elas vieram numa pequena onda de penas, bicos e indignação. Uma delas, a mais branca, sempre bicava minha bota antes de comer, como se exigisse uma taxa. Eu nunca soube se aquilo era inteligência ou falta completa dela.

Joguei a ração devagar, espalhando pelo chão. O som dos grãos caindo na terra me agradava. Era simples. Honesto. Um som que não devia nada a ninguém.

Houve um tempo em que minha vida era feita de tavernas barulhentas, estradas ruins, apostas piores e fugas apressadas por becos de cidades que eu mal sabia pronunciar. Palmer ria alto demais. Raphael sempre tinha um plano que começava ruim e terminava pior. Eu os acompanhava porque o mundo parecia grande, e eu era jovem o bastante para acreditar que grande era o mesmo que bom.

Agora meu mundo cabia entre uma cerca torta, uma casa pequena e três pessoas dormindo lá dentro.

E eu jamais tinha sido tão rico.

Essa era a parte que eu nunca dizia em voz alta. Talvez porque, se dissesse, alguma coisa no mundo pudesse ouvir e resolver me corrigir.

Continuei o trabalho. Verifiquei os ninhos, recolhi os ovos, espantei uma galinha de cima de um saco de sementes como se estivesse negociando com uma rainha ofendida. Depois segui para o campo. O cabo da enxada já tinha se moldado à minha mão de um jeito que nenhuma espada jamais conseguiu. Espadas eram ferramentas impacientes. A terra, pelo menos, aceitava conversa.

Não que eu conversasse muito.

Mas ela aceitava silêncio também.

Trabalhei até sentir o suor descer pela nuca e se perder na gola da camisa. O sol bateu nos meus cabelos vermelhos, nas minhas mãos, nos ombros. Eu podia ter usado um chapéu. Orfina dizia isso quase todos os dias.

Eu esquecia quase todos os dias.

Quando finalmente ouvi a porta da casa se abrir, não precisei olhar para saber que era ela. Orfina tinha um jeito próprio de existir no mundo. Até quando caminhava sobre terra batida, parecia que havia entrado em uma sala preparada para recebê-la.

— Astel — chamou, com aquela suavidade que sempre fazia meu nome parecer menos áspero.

Apoiei a enxada no chão e me virei.

Ela estava na varanda, loira, luminosa, com os cabelos presos de qualquer jeito e ainda assim parecendo mais elegante do que qualquer nobre que já havia me olhado de cima. Usava um vestido simples, claro, com as mangas dobradas. Havia farinha numa das mãos. Provavelmente já tinha começado o pão antes de me chamar.

— Você esqueceu o chapéu — disse ela.

Olhei para cima, como se o sol fosse uma descoberta recente.

— Percebi.

— Percebeu tarde.

— Ainda conta.

Ela sorriu, e pronto. O dia melhorou de forma irritante.

Atrás dela, uma sombra pequena passou correndo pela cozinha.

Depois outra.

Houve um baque.

Um grito.

Outro baque.

Orfina fechou os olhos por um instante, respirou com paciência nobre, maternal e quase sobrenatural, e disse:

— Hati. Skoll. Se algum dos dois quebrou alguma coisa, eu gostaria muito que confessassem antes que eu precise descobrir.

Silêncio.

O silêncio de crianças culpadas era diferente do meu. O meu era pesado. O deles tinha pés sujos e estava segurando o riso.

— Não quebrou! — gritou Hati.

— Ainda! — acrescentou Skoll.

Orfina levou dois dedos à ponte do nariz.

Eu sorri antes de conseguir impedir.

Ela viu.

— Não incentive.

— Não estou incentivando.

— Você está sorrindo.

— Posso estar sofrendo por dentro.

— Astel.

— Sim?

— Chapéu. Agora.

Obedeci.

Não por medo. Evidentemente. Um homem que já tinha atravessado meia dúzia de planos, brigado em tavernas demais e enfrentado coisas que não deveriam existir não tinha medo de uma eladrin loira com farinha na mão.

Respeito era outra coisa.

Quando entrei, Hati surgiu debaixo da mesa como se tivesse nascido ali. O cabelo vermelho estava uma bagunça impossível, as orelhas pontudas apareciam entre os fios, e havia uma mancha escura no queixo.

— Pai, a gente vai para Prymp hoje?

— Bom dia para você também.

— Bom dia. A gente vai?

— Vamos vender parte da colheita.

— Então vamos.

— Eu vou.

Ele arregalou os olhos como se eu tivesse acabado de anunciar o fim de todas as coisas justas.

— Mas eu sou muito bom em vender!

Skoll apareceu atrás dele, com os cabelos loiros caindo no rosto e um pano amarrado em volta do pescoço como capa. Não sei de onde ele tirava aqueles panos. Eu comprava tecido para remendo e, dois dias depois, metade virava capa, bandeira, máscara ou alguma forma de ameaça doméstica.

— Ele não é — disse Skoll. — Ele só grita com as pessoas até elas darem alguma coisa para ele ir embora.

— Isso é vender — respondeu Hati.

— Isso é extorsão.

Hati franziu a testa.

— O que é extorsão?

— Uma coisa que seu irmão não deveria saber explicar no café da manhã — disse Orfina, colocando pão na mesa.

Skoll abriu a boca.

Orfina olhou para ele.

Skoll fechou a boca.

Sentei-me à mesa e comecei a contar, por hábito, antes mesmo de pegar comida. Quatro ovos. Pão fresco. Um pouco de queijo. Fruta cortada em pedaços pequenos, porque Orfina fazia essas coisas como se a beleza fosse uma necessidade tão real quanto sal.

A mesa não era farta do jeito que a família dela provavelmente conhecia. Não havia criados. Não havia prata. Não havia pratos pintados à mão vindos de alguma casa antiga demais para lembrar quem a construiu.

Havia madeira marcada, bancos gastos, duas crianças brigando pelo pedaço maior de queijo e uma mulher que tinha deixado salões nobres para estar ali.

Às vezes, essa verdade me atingia em momentos pequenos.

Eu olhava para Orfina passando manteiga no pão de Hati enquanto ouvia Skoll inventar uma desculpa muito elaborada sobre por que havia lama dentro da gaveta de talheres, e pensava: ela poderia ter tido mais.

Mais conforto. Mais segurança. Mais vestidos que não precisassem ser remendados com tanto cuidado. Mais noites sem fazer contas em silêncio. Mais portas abertas por sobrenomes, não por negociação.

Então ela olhava para mim como se soubesse exatamente onde minha cabeça tinha ido.

Na maioria das vezes, sabia.

— Astel — disse ela, baixo o bastante para os meninos não perceberem. — Volte para a mesa.

Eu pisquei.

— Estou na mesa.

— Seu corpo está.

Hati esticou a mão para pegar outro pedaço de fruta. Skoll tentou chegar antes. Os dois quase derrubaram a caneca de água.

Orfina segurou a caneca sem nem olhar.

— Hoje você vende bem — continuou ela, como se nada tivesse acontecido. — Compra o que precisa. Volta antes do jantar. E não deixa Hati convencê-lo de que doces são ferramenta agrícola.

Hati congelou.

— Mas são.

— Não são.

— Eles ajudam o trabalhador a ficar feliz.

— Isso é argumento de alguém que quer doce.

— Mas também é verdade.

Skoll apoiou o queixo na mão.

— Tecnicamente, mãe, se ele ficar feliz, ele pode trabalhar melhor.

— Você também quer alguma coisa.

— Eu? Nunca.

Orfina olhou para ele.

Skoll sorriu com a inocência de quem já tinha planejado três crimes antes do meio-dia.

Eu deveria ter dito não.

Um pai responsável diria não.

Um pai responsável lembraria que precisávamos de pregos, sal, linha, talvez uma dobradiça nova para a porta do galinheiro, e que cada cobre gasto em bobagem voltaria mais tarde na forma de uma hora extra no campo.

Eu sabia de tudo isso.

Foi por isso que, quando Hati virou o rosto para mim com aqueles olhos enormes herdados da mãe e o cabelo vermelho caindo na testa, eu respirei fundo e disse:

— Veremos.

Orfina suspirou.

Skoll apontou para Hati.

— Ele venceu.

— Eu não venci nada — disse Hati, já sorrindo.

Eu também sorri.

Pequeno. Quase nada.

Mas Orfina viu, porque Orfina sempre via.

Prymp cheirava a pão, ferrugem, perfume barato, esterco, pergaminho novo e gente apressada. Era uma cidade como muitas, exceto pelo modo como o extraordinário se misturava ao comum sem pedir atenção. Entre uma padaria e uma loja de roupas, havia uma vitrine com varinhas finas repousando sobre veludo azul. Mais adiante, um velho vendia amuletos de proteção ao lado de uma mulher que discutia o preço de cebolas. Uma criança passou correndo com uma pena encantada flutuando atrás dela, tentando acompanhar a própria dona.

Hati viu tudo.

Comentou tudo.

Perguntou tudo.

— Pai, aquilo explode?

— Espero que não.

— Mas pode?

— Qualquer coisa pode explodir se alguém for incompetente o bastante.

— Você já explodiu alguma coisa?

— Não hoje.

Ele me encarou com admiração renovada.

Eu deveria ter escolhido melhor as palavras.

Vendi a colheita para três comerciantes diferentes. O primeiro tentou pagar pouco demais. O segundo fingiu que a qualidade estava abaixo do normal. O terceiro pagou melhor porque eu mencionei, com toda a calma do mundo, que o segundo já tinha oferecido quase o mesmo valor.

Mentira.

Mas mentira pequena. Rural. Honesta de algum jeito que Raphael teria aprovado com entusiasmo.

No fim, consegui alguns cobres a mais do que esperava.

Poucos.

O bastante para sentir alívio.

Não o bastante para esquecer a lista.

Hati ficou quieto por quase quatro minutos inteiros enquanto eu comprava sal, linha e pregos. Depois parou diante da barraca de doces como se tivesse encontrado um altar.

— Pai.

— Não.

— Eu nem pedi.

— Eu ouvi você pensando.

— Isso é injusto.

— A vida costuma ser.

Ele juntou as mãos atrás das costas e olhou para a barraca. Havia balas de mel enroladas em papel fino, maçãs cobertas com calda brilhante e pequenos pedaços de açúcar colorido que provavelmente custavam mais do que deveriam por serem bonitos.

Hati não falou.

Esse foi o problema.

Se tivesse pedido, eu poderia negar. Se tivesse insistido, eu poderia lembrar que Orfina avisou. Se tivesse feito drama, eu poderia fingir firmeza.

Mas ele só ficou olhando.

Pequeno. Agitado. Sujo no joelho. Feliz por estar comigo.

Comprei as balas de mel.

— Não conte para sua mãe.

— Ela vai saber.

— Então por que eu pedi?

— Porque você sempre tenta.

Justo.

Antes de voltar, comprei também um pequeno conjunto de tintas baratas para rosto, dessas que artistas de rua usavam para apresentações. Skoll vinha roubando carvão do fogão para se pintar e assustar Hati atrás do celeiro. Aquilo manchava as roupas, as paredes, e uma vez quase manchou uma galinha inteira.

As tintas seriam mais fáceis de limpar.

Talvez.

Eu também comprei um pão pequeno com ervas doces, do tipo que Orfina gostava e fingia não gostar tanto assim para ninguém gastar dinheiro com ele.

Quando voltei para casa, o sol já caía devagar.

Skoll apareceu primeiro, pendurado na cerca, como se estivesse esperando havia horas.

— Trouxe alguma coisa?

— Boa noite para você também.

— Boa noite. Trouxe?

Hati saltou da carroça antes que eu mandasse esperar.

— Ele comprou doces!

Traidor.

Orfina surgiu na porta com um pano nas mãos. Olhou para Hati. Depois para mim. Depois para o pacote claramente suspeito que eu tentei esconder tarde demais.

— Astel.

O modo como ela dizia meu nome podia significar muitas coisas. Naquele momento, significava que eu era amado, conhecido e condenado.

— Eram baratos — eu disse.

— Tenho certeza de que eram.

— Muito baratos.

— Naturalmente.

Hati já estava com uma bala na boca.

Skoll pegou o pacote de tintas, abriu, e seus olhos brilharam de um jeito perigoso.

— Isso é para mim?

— Para parar de usar carvão.

— Então é para mim.

— É para todos nós, se impedir sua mãe de encontrar marcas pretas nas fronhas.

Orfina tentou parecer severa. Conseguiu por quase um segundo. Depois viu o pão.

A severidade falhou.

Ela pegou o embrulho com cuidado, como se fosse algo mais precioso do que era.

— Você não precisava.

Eu sabia que não.

Esse era o ponto.

— Eu quis.

Ela me olhou por um tempo. Não havia salão nobre em Prymp, Baldur's Gate ou qualquer outro lugar do mundo que pudesse ensinar aquele olhar. Era gentil demais para ser repreensão, firme demais para ser pena.

— Nós somos felizes, Astel — disse ela, baixo. — Mesmo quando você esquece disso por nós dois.

Não respondi.

Algumas verdades eram grandes demais para caber na boca.

Naquela noite, jantamos pão, ovos, legumes e um pouco de queijo. Hati ficou com açúcar no canto da boca. Skoll pintou metade do rosto de cinza e azul para tentar assustar o irmão, mas espirrou antes da hora e estragou a própria emboscada. Orfina brigou com os dois com uma delicadeza tão perfeita que eles pareceram culpados sem nunca deixarem de rir.

Eu comi menos do que poderia.

Sorri mais do que costumava.

E, quando a casa finalmente ficou quieta, olhei para os três à luz baixa da lamparina e pensei que talvez Orfina estivesse certa.

Talvez aquilo fosse felicidade.

Não a felicidade dos bardos, dos reis, dos salões, das vitórias impossíveis.

A nossa.

Pequena. Barulhenta. Cara demais para o meu bolso.

E ainda assim, se alguém me oferecesse o mundo em troca dela, eu teria fechado a porta antes que terminasse a proposta.

Voltar ao sumário

Capítulo 2

Quando a Terra Parou de Responder

Dias bons raramente avisam que são bons.

Eles não chegam com música, nem com um sinal no céu, nem com algum velho misterioso na estrada dizendo que você deveria prestar atenção porque aquilo ali, exatamente aquilo, era felicidade.

Dias bons só acontecem.

Você acorda cedo. Alimenta as galinhas. Trabalha no campo. Ouve seus filhos brigando por algum motivo que nenhum juiz do mundo conseguiria levar a sério. Beija sua esposa na testa quando ela finge que não percebe que você está tentando roubar um pedaço de pão antes do jantar.

Depois dorme.

No dia seguinte, faz tudo de novo.

E, se tiver sorte, só entende anos depois que aquilo era a parte da vida em que o mundo ainda estava sendo gentil.

Por algumas semanas depois daquela ida a Prymp, a fazenda seguiu seu curso. Skoll usou as tintas que comprei para se transformar em pelo menos seis criaturas diferentes, nenhuma delas convincente, todas elas eficazes contra Hati. Hati, por sua vez, desenvolveu a teoria de que doces melhoravam a visão, a força, a velocidade, a coragem e, em uma tentativa particularmente ousada, a capacidade de obedecer à mãe.

Orfina ouviu a explicação inteira com as mãos cruzadas diante do avental.

— Então, se eu lhe der doces, você vai obedecer mais?

Hati pensou.

Esse foi o erro dele.

— Talvez.

— Resposta errada — disse Skoll, passando atrás dele.

Hati virou rápido demais, tropeçou no próprio pé e quase derrubou uma cadeira.

Orfina fechou os olhos.

Eu escondi o sorriso atrás da caneca.

— Astel — ela disse, sem olhar para mim.

— Sim?

— Não ria.

— Não estou rindo.

— Você está respirando com culpa.

Era difícil vencer uma discussão com Orfina. Não porque ela gritasse. Nunca precisava. Ela apenas dizia a verdade com tanta educação que o resto de nós parecia grosseiro por existir de outro jeito.

Naqueles dias, ainda havia pão suficiente na mesa. Ainda havia ovos quase todas as manhãs. Ainda havia trabalho demais, que era uma forma de problema, mas também uma forma de bênção. Fazenda sem trabalho era fazenda morrendo. Meu pai dizia isso entre uma reclamação e outra, lá em Chathold, quando eu era jovem demais para entender que algumas frases ficam guardadas em você mesmo quando não gosta de quem as disse.

A terra respondia ao esforço.

Eu colocava a enxada no chão duro, abria espaço, arrancava ervas ruins, limpava o canteiro, conferia a umidade com os dedos, e a terra respondia. Não com gratidão. Terra não era sentimental. Mas respondia.

Até que começou a não responder.

No início, foi fácil ignorar.

A chuva atrasou alguns dias. Acontecia. O vento veio mais quente do que devia. Também acontecia. Algumas folhas amarelaram nas bordas. Eu cortei, limpei, ajustei o que podia. Uma galinha parou de botar. Depois voltou. Depois outra parou.

Pequenas coisas.

Coisas pequenas eram traiçoeiras. Quando boas, sustentavam uma vida inteira. Quando ruins, abriam rachaduras tão finas que um homem podia passar por cima delas sem perceber que estava andando sobre algo prestes a partir.

Fui a Prymp no fim da semana com menos do que pretendia vender.

Voltei com menos ainda do que pretendia receber.

— A colheita veio fraca — disse o primeiro comerciante, pesando os vegetais como se estivesse fazendo caridade ao encostar neles.

— Veio menor — respondi. — Não fraca.

— Menor vale menos.

— Melhor vale mais.

Ele levantou os olhos para mim.

Eu sustentei o olhar.

Consegui alguns cobres a mais.

Não o bastante.

Na volta, passei diante da barraca de doces sem parar. O vendedor me reconheceu, ou reconheceu Hati pela ausência, o que talvez fosse mais provável.

— Sem o pequeno hoje?

— Sem o pequeno hoje.

— Melhor assim. Ele negocia melhor que você.

Eu quase sorri.

Quase.

Comprei sal, farinha e uma peça de couro para remendo. Fiquei tempo demais olhando para uma dobradiça nova. A do galinheiro ainda prendia, se fosse fechada com cuidado. Cuidado era de graça. Dobradiças não.

Voltei sem ela.

Quando cheguei, Hati correu até a carroça antes que eu descesse.

— Trouxe alguma coisa?

A pergunta veio alegre, automática, sem maldade nenhuma. Foi isso que a tornou pesada.

— Farinha — respondi.

Ele olhou para o saco.

— Farinha não conta.

— Conta quando vira pão.

— Mas antes disso é só poeira triste.

Skoll apareceu atrás dele, já com metade do rosto pintado de verde.

— Tecnicamente, ele está certo.

— Você está verde — eu disse.

— Tecnicamente, você também está certo.

Orfina veio até a porta. Não perguntou nada na frente deles. Apenas olhou para a carroça, para os sacos, para mim. Seu rosto não mudou muito. O rosto de Orfina raramente entregava preocupação de primeira. Ela tinha sido criada em salões onde uma sobrancelha fora do lugar podia virar assunto para três famílias.

Mas eu conhecia suas mãos.

Ela apertou o pano que segurava.

Só isso.

Naquela noite, havia comida na mesa. Menos queijo. Mais pão. Legumes cortados menores do que de costume, misturados com ervas para parecerem mais. Orfina fazia essas coisas sem humilhar a comida. Ela não servia escassez. Servia cuidado.

Hati falou durante metade do jantar sobre uma pedra que tinha encontrado perto do poço e que, segundo ele, parecia claramente um dragão dormindo.

— Não parecia — disse Skoll.

— Parecia sim.

— Parecia uma pedra.

— Dragões podem parecer pedras.

— Se forem dragões muito ruins.

— Você que é ruim.

— Eu sou excelente.

— Em ser irritante.

— Também.

Normalmente, eu teria mandado os dois comerem antes que a comida esfriasse. Naquela noite, deixei a discussão durar mais um pouco. Barulho preenchia a casa melhor do que silêncio. E havia certos silêncios que eu não queria que Orfina ouvisse.

Depois do jantar, Hati ficou rondando a cozinha.

Eu percebi antes que ele falasse.

Orfina também.

— Hati — ela chamou.

Ele parou com a expressão de alguém injustamente acusado por um crime que ainda estava considerando cometer.

— Sim, mãe?

— O que você quer perguntar?

Ele olhou para mim. Depois para ela. Depois para mim de novo.

— Nada.

Skoll, sentado no chão com um pedaço de madeira e uma faca pequena que não deveria estar com ele, ergueu a mão.

— Ele quer saber quando vai ter doce de novo.

— Traidor — sussurrou Hati.

— Realista.

Orfina estendeu a mão para Skoll.

— Faca.

— Mas eu estou fazendo uma armadilha.

— Faca.

— Uma armadilha pequena.

— Skoll.

Ele entregou.

Hati ainda me olhava.

Era uma pergunta simples. Quando vai ter doce de novo?

Não era fome. Não era necessidade. Era só uma criança perguntando quando a vida voltaria a dar uma coisa pequena e boa.

Senti a resposta se prender atrás dos dentes.

Logo, eu poderia dizer.

Quando vendermos melhor.

Quando chover.

Quando der.

Mentiras vinham em muitos tamanhos. As pequenas eram as mais fáceis de justificar.

— Da próxima vez que eu for a Prymp — respondi.

Orfina olhou para mim.

Hati abriu um sorriso tão rápido que doeu.

— Promete?

A palavra ficou entre nós.

Promessas eram perigosas. Eu sabia disso mesmo antes de perder qualquer coisa grande. Uma promessa criava uma ponte entre o que você queria ser e o que o mundo permitia que você fosse. Às vezes, o mundo queimava a ponte e deixava você segurando apenas a vergonha.

— Vou tentar — disse.

Não era o que ele queria ouvir.

Mas era o que eu ainda podia dar sem me odiar por completo.

Mais tarde, quando os meninos dormiram, saí para o campo.

A noite estava quente demais.

Esse foi o detalhe que me assustou de verdade. Não a colheita menor. Não o comerciante pagando pouco. Não a ausência de doces no bolso de Hati. A noite. A noite deveria trazer algum alívio. Umidade nas folhas. Frio leve na terra. O mundo respirando depois de um dia sob o sol.

Mas o ar continuava parado.

Abaixei-me perto de um dos canteiros e enfiei os dedos no solo.

Seco.

Não seco na superfície. Seco por dentro.

A terra se partiu entre meus dedos em pequenos pedaços duros, como se tivesse desaprendido a segurar vida.

Fiquei ali por tempo demais.

Ouvi passos atrás de mim. Leves. Conhecidos.

Orfina não disse nada no começo. Apenas veio até meu lado e olhou para o campo. A lua dava às plantas uma cor pálida, quase doente. De dia, eu conseguia fingir melhor. O sol deixava tudo claro demais, ocupado demais. À noite, não havia distração.

— Quanto perdemos? — ela perguntou.

Poderia ter perguntado se estava tudo bem.

Não perguntou.

Era uma das formas dela de me amar.

Passei a mão pela terra seca.

— Ainda não sei.

— Astel.

Fechei os dedos.

— Muito, talvez.

Ela se ajoelhou ao meu lado sem se importar com o vestido. Pegou minha mão antes que eu pudesse limpar a sujeira.

— Nós já tivemos pouco antes.

— Não assim.

— Então teremos pouco de outro jeito.

Olhei para ela.

Havia luar nos cabelos dela. Havia terra no joelho do vestido. Havia uma calma em seu rosto que eu queria merecer.

— Você não deveria ter que viver contando o que falta — eu disse.

Orfina passou o polegar sobre meus dedos, limpando uma linha de terra da minha pele.

— E você não deveria decidir sozinho o peso de tudo.

Eu quis responder que alguém precisava decidir. Que alguém precisava olhar para o campo, para a comida, para os preços, para os meninos, para ela, e transformar medo em trabalho antes que o medo virasse fome.

Mas dizer isso em voz alta faria parecer que eu não confiava nela.

E eu confiava.

Só não confiava no mundo.

— Vai chover — ela disse.

Não como profecia. Não como certeza boba. Como quem escolhe colocar uma mão sobre uma ferida antes mesmo de saber se pode fechá-la.

Olhei para o céu.

Nenhuma nuvem.

Nenhum vento.

Apenas estrelas indiferentes, espalhadas acima da nossa pequena fazenda ao sul de Prymp.

Apertei a mão dela.

— Vai — menti.

Orfina deitou a cabeça no meu ombro por um instante.

Eu fiquei olhando para a terra rachada, tentando lembrar como era o som da chuva quando batia no telhado.

E, pela primeira vez em muitos anos de vida simples, percebi que não sabia o que faria se a terra não respondesse mais.

Voltar ao sumário

Capítulo 3

O Mês Seguinte

A chuva não veio no dia seguinte.

Nem no outro.

Depois de uma semana, parei de olhar para o céu logo que acordava. Não porque tivesse desistido. Desistir era uma palavra grande demais para caber numa manhã de trabalho. Eu só aprendi a fazer outra coisa primeiro.

Alimentava as galinhas.

Conferia o poço.

Passava pelo campo.

Voltava para dentro de casa antes que Hati perguntasse se as nuvens estavam atrasadas porque tinham se perdido no caminho.

Ele perguntou mesmo assim.

— Pai, nuvens podem se perder?

Eu estava consertando uma das tábuas da cerca quando ele apareceu ao meu lado com os cabelos vermelhos em todas as direções possíveis. Tinha terra no joelho, uma folha presa na manga e a expressão séria de quem havia passado tempo demais pensando em coisas que não respeitavam a idade dele.

— Podem — respondi.

— Como?

— O céu é grande.

Hati olhou para cima.

O céu estava limpo de um jeito ofensivo.

— Então alguém devia colocar placas.

— Vou sugerir isso para o rei.

Ele pensou por um instante.

— O rei manda nas nuvens?

— O rei acha que manda em muita coisa.

— Mas manda?

Bati o martelo no prego com um pouco mais de força do que precisava.

— Não em tudo.

Hati aceitou aquilo como resposta. Crianças faziam isso às vezes. Pegavam uma frase pela metade, viravam nas mãos, decidiam que servia e corriam para outra pergunta antes que você percebesse que tinha dito mais do que pretendia.

— Skoll disse que consegue chamar chuva se eu ficar parado de cabeça para baixo perto do poço.

— Skoll mentiu.

— Eu sei.

— Então por que você está com barro no cabelo?

Hati tocou a própria cabeça, encontrou barro e ficou traído pela existência.

— Porque talvez ele estivesse certo.

Ouvi uma risada atrás do celeiro.

— Skoll — chamei.

Silêncio.

O silêncio de Skoll não era ausência. Era preparação.

— Se eu tiver que ir até aí, vou levar sua mãe comigo.

Uma cabeça loira apareceu por cima de um barril.

— Isso é ameaça injusta.

— É uma ameaça eficiente.

Skoll saiu de trás do barril com as mãos erguidas, o rosto pintado com duas linhas escuras que deveriam torná-lo assustador. O efeito geral era menos predador noturno e mais criança que perdeu uma briga contra carvão.

— Eu estava conduzindo uma experiência — disse ele.

Hati apontou para ele.

— Ele disse que eu precisava ficar de cabeça para baixo porque as nuvens gostam de coisas engraçadas.

— Elas gostam — disse Skoll. — Só não funcionou ainda.

— Vocês dois vão lavar esse barro antes de entrar — falei.

— A mãe já viu — disse Skoll.

Aquilo sim me assustou.

Olhei para a casa.

Orfina estava na varanda, segurando uma bacia vazia contra o quadril. Os cabelos loiros estavam presos em uma trança frouxa, e o vestido claro tinha marcas de farinha perto da cintura. Ela olhava para os meninos com aquele tipo de calma que vinha antes das correções mais perigosas.

— Hati — ela disse.

— Foi o Skoll.

— Skoll.

— Foi a ciência.

— Ciência e Skoll vão lavar as mãos, os rostos, os pés e qualquer outra parte que vocês pretendam trazer para dentro da minha casa.

— Sim, mãe — disseram os dois, com níveis diferentes de arrependimento e nenhum sinal real de mudança futura.

Eles correram para o poço.

Orfina desceu da varanda e veio até mim. Não perguntou sobre o céu. Também tinha parado de perguntar todos os dias.

— A cerca está melhor — disse ela.

Olhei para a tábua torta, para os pregos reaproveitados, para a parte que ainda precisava ser trocada.

— Está menos pior.

— Isso é um tipo de melhor.

— Uma filosofia perigosa.

Ela sorriu, mas seus olhos foram para o campo atrás de mim.

O campo não sorria.

As folhas estavam mais baixas. Algumas plantas tinham começado a se fechar sobre si mesmas, como se tentassem guardar por dentro a pouca vida que ainda tinham. Eu conhecia aquela postura. Homens faziam o mesmo quando sabiam que a próxima pancada viria e não podiam sair do lugar.

Orfina tocou meu braço.

— Você vai a Prymp hoje?

— Amanhã.

— Ainda tem o suficiente para vender?

— Algum.

Ela assentiu.

Não era mentira. Ainda havia algum.

Algum era uma palavra miserável. Servia para quase tudo e não resolvia nada.

Naquela manhã, fizemos o que sempre fazíamos. Eu consertei cerca, puxei água, virei a terra onde a terra ainda aceitava ser virada. Orfina lavou roupa, preparou comida, impediu Hati de entrar na cozinha com uma minhoca que ele insistia ter nome, e explicou a Skoll que fingir ser um comerciante ferido para conseguir pedaços extras de pão era uma forma muito criativa de não ganhar pedaços extras de pão.

A casa continuou viva.

Essa era a crueldade das dificuldades lentas. Elas não derrubavam tudo de uma vez. Deixavam a mesa no mesmo lugar, a porta rangendo do mesmo jeito, os filhos rindo na mesma hora errada. O mundo não tinha a decência de parecer acabado quando começava a acabar.

Perto do meio-dia, ouvi cavalos.

Não era incomum ouvir carroças na estrada. A rota para Prymp passava longe o bastante para não trazer movimento constante, perto o bastante para às vezes carregar vozes, rodas, sinos de animais. Mas cavalos montados soavam diferente. Tinham pressa mesmo quando vinham devagar.

Levantei a cabeça.

Três homens vinham pela estrada de terra.

Dois usavam cota de malha leve sob tabardos gastos pelas viagens. O símbolo do rei aparecia no peito deles, bordado em fio escuro sobre tecido claro. O terceiro vinha um pouco atrás, mais novo, com uma lança curta presa à sela e a expressão rígida de quem ainda achava que postura podia substituir experiência.

Soldados.

Senti meu corpo entender antes da minha cabeça.

A mão fechou no cabo da enxada.

Não como ameaça. Não ainda.

Só como lembrança de que eu tinha mãos.

Orfina apareceu na porta antes que eu chamasse. Os meninos estavam atrás dela, Hati tentando espiar por um lado, Skoll por outro.

— Entrem — disse ela, baixo.

— Mas—

— Agora.

Skoll obedeceu primeiro. Hati hesitou o bastante para eu olhar para ele. Então entrou também.

Os cavalos pararam perto da cerca.

O homem à frente era largo, barba escura aparada rente, pele queimada de sol e olhos cansados. Não parecia cruel. Eu teria preferido que parecesse. Crueldade era mais fácil de entender. Dava ao corpo um lugar claro para colocar a raiva.

Ele desmontou com um suspiro curto, como se até aquilo fosse parte de uma lista longa demais.

— Astel Nightshade?

— Sou eu.

— Fazendeiro desta propriedade?

— Sim.

Ele tirou um papel dobrado de dentro do colete. O selo vermelho estava rachado na borda, mas inteiro o bastante para fingir importância.

— Viemos pela cobrança das taxas devidas à coroa.

Atrás de mim, ouvi a porta da casa abrir mais um pouco.

Eu não me virei.

— A região está seca — falei.

O soldado me olhou como se eu tivesse comentado que o sol era quente.

— Sabemos.

— A colheita caiu para menos da metade.

— Sabemos disso também.

— Então sabem que não há como pagar o valor inteiro agora.

Ele respirou pelo nariz. Não era irritação. Era cansaço. Talvez tivesse ouvido a mesma frase em outras cinco fazendas antes da minha. Talvez fosse ouvir em outras cinco depois. Talvez, quando voltasse para onde quer que dormisse, ainda conseguisse comer melhor do que meus filhos naquela noite.

— A taxa não foi suspensa.

— Deveria.

O soldado mais novo endireitou na sela.

O da frente ergueu uma mão pequena, quase imperceptível, mandando-o ficar quieto.

— Não vim discutir o que deveria ser.

— Conveniente.

Orfina disse meu nome atrás de mim.

Só meu nome.

Baixo.

Foi o suficiente para eu soltar o cabo da enxada.

O soldado viu.

Também fingiu que não.

— Há atraso no pagamento — continuou ele. — O registro mostra que a propriedade Nightshade deve a taxa da estação, mais a diferença acumulada da última entrega.

— A última entrega foi aceita.

— Foi aceita abaixo da cota.

— Porque pagaram abaixo do valor justo.

— Isso não está no registro.

Quase ri.

Não porque fosse engraçado.

Algumas coisas eram tão absurdas que o corpo procurava uma reação conhecida e pegava a errada.

— Claro que não está.

Ele me estendeu o papel.

Peguei sem querer pegar.

Havia números. Selos. Frases escritas por alguém que provavelmente nunca precisou medir farinha antes de decidir se uma criança podia repetir o prato. A dívida parecia limpa no papel. Organizada. Razoável. Quase bonita, se você ignorasse que cada linha significava menos comida, menos semente, menos tempo.

Orfina se aproximou.

Não ficou atrás de mim. Ficou ao meu lado.

O soldado notou sua postura antes de notar sua beleza. Muita gente fazia o contrário. Ele inclinou a cabeça com um respeito automático.

— Senhora.

— Bom dia — disse Orfina.

Mesmo ali, mesmo com poeira no ar e soldados na frente da nossa casa, ela respondeu como se estivesse recebendo convidados que tinham esquecido as próprias maneiras.

— Meu marido está tentando dizer que pagaremos — continuou ela. — Mas precisamos de prazo. A seca atingiu todas as propriedades ao sul de Prymp. Os comerciantes já reduziram os pagamentos, e ainda estamos tentando manter a produção.

O soldado pareceu ouvir mais quando ela falou.

Isso me irritou.

E me aliviou.

Eu não era orgulhoso a ponto de recusar ajuda quando minha família estava em risco. Apenas era orgulhoso o bastante para odiar precisar dela.

— Há um prazo previsto — disse ele.

— Qual?

— Um mês.

A palavra caiu de um jeito seco.

Um mês.

Trinta dias, se o mundo estivesse disposto a ser generoso com a contagem. Quatro idas ruins a Prymp. Talvez duas colheitas pequenas, se alguma planta ainda decidisse lutar. Um punhado de noites tentando transformar números impossíveis em planos.

— E depois? — perguntei.

O soldado olhou para mim.

Pela primeira vez, pareceu desconfortável.

— Se o pagamento não for feito, a propriedade entra em confisco.

Orfina ficou imóvel.

Só a mão dela mudou. Os dedos fecharam um pouco na lateral do vestido.

Eu vi.

Queria não ter visto.

— Confisco — repeti.

— A terra será retomada pela coroa até quitação ou redistribuição.

— Redistribuição.

— É o termo.

— Termos são úteis. Fazem roubo parecer administração.

O soldado jovem desmontou num movimento brusco.

— Cuidado com a língua.

Eu virei o rosto para ele devagar.

Ele era jovem mesmo. Jovem demais para estar tão ansioso por ser obedecido. Tinha espinhas perto da mandíbula e uma mancha de ferrugem na fivela do cinto. A lança em sua mão tremia só um pouco.

Eu pensei em muitas coisas naquele instante.

Nenhuma delas boa.

Pensei em como seria fácil atravessar os poucos passos entre nós. Pensei no peso da enxada. Pensei no ponto fraco entre elmo e pescoço. Pensei que o outro soldado, o terceiro, levaria tempo demais para sacar a espada se eu me movesse primeiro.

Pensei que meus filhos estavam dentro de casa.

Pensei que Orfina estava ao meu lado.

Então respirei.

— Estou cuidando dela — falei.

O soldado mais velho se colocou meio passo à frente do jovem.

— Ninguém aqui quer problema.

— Vocês vieram à minha casa dizer que podem tomá-la.

— Vim entregar aviso.

— E isso melhora?

Ele não respondeu.

Porque não melhorava.

Orfina tocou minha mão. Não me segurou. Só tocou, dois dedos sobre os meus, leve o bastante para parecer pedido, firme o bastante para ser âncora.

— Um mês — ela disse.

O soldado assentiu.

— Se houver pagamento parcial antes disso, podem registrar em Prymp. Mas o total precisa ser quitado até o prazo. Meu conselho é procurar o escritório de arrecadação e tentar formalizar uma extensão.

— Eles concedem? — perguntei.

Ele dobrou o papel que não estava mais comigo, talvez por hábito.

— Às vezes.

— Para quem?

O silêncio respondeu antes dele.

Para quem tinha nome.

Para quem tinha contato.

Para quem podia perder dinheiro sem perder casa.

Para quem entrava em escritórios sem terra nas botas.

Orfina ergueu o queixo.

Naquele pequeno movimento, vi Baldur's Gate. Vi salões que eu nunca habitaria, famílias com sobrenomes pesados, mesas longas, taças finas e pessoas capazes de sorrir enquanto decidiam o destino de outras. Vi também a mulher que deixou tudo aquilo e escolheu uma casa com dobradiça ruim, filhos sujos de barro e um marido que às vezes confundia silêncio com proteção.

— Obrigada pela informação — disse ela.

O soldado pareceu aceitar a dispensa.

Montou de novo.

O mais jovem ainda me olhava como se quisesse que eu desse a ele uma desculpa.

Eu quase dei.

Quase.

Os três partiram levantando poeira.

Fiquei olhando até desaparecerem na curva da estrada.

Só então percebi que tinha amassado o aviso na mão.

Hati foi o primeiro a sair.

Claro que foi.

— Eles vão voltar?

Orfina se virou para ele antes de mim.

— Hati.

— Eu ouvi.

Skoll apareceu atrás do irmão, mais pálido do que tentava parecer. As linhas de carvão no rosto já tinham borrado. Sem a brincadeira, pareciam sujeira.

— Eles podem levar a casa? — perguntou Skoll.

Não havia mentira pequena o bastante para aquela pergunta.

Eu me agachei diante dos dois.

O joelho estalou. Irritante. Inútil. Real.

— Não vou deixar.

Hati aceitou na hora.

Skoll não.

Skoll olhou para mim como Orfina olhava às vezes. Como se escutasse o que eu não tinha dito.

— Mas podem?

Orfina pousou a mão no ombro dele.

— Seu pai e eu vamos resolver.

— Como?

Ela acariciou os cabelos loiros dele, ajeitando uma mecha para trás da orelha.

— Primeiro, lavando seu rosto antes que esse carvão manche outra roupa.

— Mãe.

— Primeiro — repetiu ela, gentil.

E, de algum modo, Skoll obedeceu.

Hati também entrou, embora olhasse para trás duas vezes. Na segunda, tentei sorrir.

Não sei se consegui.

Quando ficamos sozinhos na varanda, entreguei o papel a Orfina.

Ela leu tudo.

Duas vezes.

— Um mês — disse.

— Eu ouvi.

— Eu sei que ouviu.

— Vou vender o que der.

— Eu sei.

— Posso procurar outros compradores.

— Sim.

— Talvez alguém pague melhor em Prymp se eu juntar com a próxima leva.

— Talvez.

— Posso trabalhar para outros fazendeiros que ainda tenham algo para colher.

Orfina levantou os olhos do papel.

— Astel.

Eu parei.

Não porque tivesse acabado de pensar em opções.

Porque já tinha começado a repetir opções ruins para não ouvir a pior.

Ela dobrou o aviso com cuidado, alisando as marcas que eu deixei.

— Vamos fazer as contas.

— Eu já fiz.

— Então vamos fazer juntos.

Quis dizer que isso não mudaria os números.

Mas mudaria a solidão deles.

Entramos.

Sentamos à mesa.

Orfina trouxe o pequeno saco de moedas que guardávamos dentro de uma caixa de costura. Eu busquei as anotações de venda, a lista de sementes, o valor estimado da próxima colheita, se colheita fosse uma palavra otimista o bastante para aquilo que ainda crescia no campo.

Os meninos ficaram quietos por um tempo anormal.

Hati sentou no chão perto da lareira sem acender, mexendo numa pedra. Talvez o dragão. Skoll fingiu consertar uma tira de couro, mas olhava para nós por baixo dos cílios.

Moedas sobre madeira faziam um som honesto.

Pouco.

Pouco também era honesto.

Somamos.

Subtraímos.

Refizemos.

Cortamos tudo que podia ser cortado.

Depois cortamos coisas que não podiam.

O resultado continuou parado na mesa, pequeno e cruel.

Não dava.

Eu encarei as moedas como se elas fossem confessar que estavam escondendo irmãs em algum lugar.

— Talvez chova — disse Orfina.

Não como mentira.

Dessa vez, como necessidade.

Assenti.

— Talvez.

Skoll se levantou do chão.

— Eu posso ajudar.

Olhei para ele.

— Pode ajudar lavando as mãos antes do jantar.

— Não, pai. Eu posso ajudar de verdade.

Havia um tipo específico de dor em ver uma criança tentando se tornar útil cedo demais. Era como ver uma planta pequena forçando raiz em pedra.

— Você ajuda — falei. — Quando cuida do seu irmão, quando obedece sua mãe, quando não convence Hati a invocar chuva de cabeça para baixo.

Hati ergueu a mão.

— Eu também posso ajudar.

— Principalmente não ficando de cabeça para baixo perto do poço.

— Isso é muito específico.

— Tenho filhos muito específicos.

Orfina riu baixinho.

O som durou pouco, mas entrou na casa como ar fresco.

Naquela noite, o jantar foi simples demais para fingir outra coisa. Pão, caldo ralo, alguns legumes. Orfina colocou a mesa com o mesmo cuidado de sempre. Guardanapos limpos. Tigelas alinhadas. A lamparina no centro.

Ela fazia aquilo por nós.

E talvez por ela também.

Para lembrar à casa que ainda era casa.

Hati comeu sem reclamar. Isso me preocupou mais do que qualquer reclamação.

Skoll ofereceu a ele metade do próprio pão quando achou que ninguém estava vendo.

Eu vi.

Orfina também.

Nenhum de nós disse nada.

Mais tarde, depois que os meninos dormiram, fiquei sentado à mesa com o aviso aberto diante de mim.

O papel não tinha mudado.

Eu esperava que mudasse. Não de verdade. Mas uma parte idiota da mente sempre espera que, se você olhar tempo suficiente para uma sentença, ela se canse e vire outra coisa.

Orfina veio por trás de mim e pousou as mãos nos meus ombros.

— Você está frio — disse ela.

Eu não tinha percebido.

— Estou pensando.

— Eu sei.

— Há trabalho em Prymp.

— Há.

— Posso pegar carga, consertar cerca, descarregar carroça.

— Pode.

— Posso vender ferramentas.

As mãos dela apertaram meus ombros.

— Não ainda.

Eu fechei os olhos.

As ferramentas eram antigas. Algumas tinham sido do meu pai. Eu não gostava de todas as lembranças que vinham com elas, mas gostava do peso. Do uso. Da prova de que homens difíceis também podiam deixar coisas úteis para trás.

— São só ferramentas — falei.

— Não são.

Abri os olhos.

Ela contornou a cadeira e se sentou à minha frente.

— Astel, olhe para mim.

Olhei.

Era sempre perigoso obedecer Orfina quando ela pedia isso. Ela me via melhor do que eu me explicava.

— Nós vamos tentar tudo que for possível — disse ela. — Mas eu preciso que você lembre que esta casa não é feita só de terra e madeira.

— Se tomarem a terra e a madeira, vai ficar difícil provar.

— Eu não estou brincando.

— Eu também não.

A dor passou pelo rosto dela tão rápido que quase não vi.

Quase.

Arrependimento é uma coisa pequena e afiada. Entra depressa.

— Desculpe — falei.

Ela respirou devagar.

— Eu sei que está com medo.

Minha primeira vontade foi negar.

Velho hábito.

Inútil.

— Estou.

Ela estendeu a mão sobre a mesa.

Coloquei a minha sobre a dela.

— Eu não devia ter tirado você de lá para isso.

Orfina ficou imóvel por um segundo.

Depois seu rosto mudou. Não para raiva. Raiva teria sido mais fácil. Mudou para uma tristeza tão paciente que me desmontou mais do que qualquer grito.

— Você não me tirou de lugar nenhum — disse ela. — Eu fui.

— Comigo.

— Sim.

— Para uma fazenda que talvez eu não consiga manter.

— Para uma vida que eu escolhi.

— Orfina—

— Não. Ouça.

Ela raramente me interrompia.

Por isso, quando fazia, o mundo prestava atenção.

— Eu conheci conforto antes de você. Conheci salões, vestidos, jantares, músicas, pessoas abrindo portas porque meu nome vinha antes de mim. Também conheci o preço disso. Você olha para o que eu deixei e só vê o que faltou aqui. Eu olho para o que construímos e vejo o que nunca tive lá.

Não havia como responder sem diminuir aquilo.

Então fiquei quieto.

Ela passou o polegar sobre meus dedos, como tinha feito no campo.

— Eu tenho medo também — disse. — Mas não me faça sentir sozinha tentando convencê-lo de que minha felicidade é real.

Aquilo acertou mais fundo do que a cobrança.

Mais fundo do que o selo do rei.

Eu abaixei a cabeça até nossas mãos.

— Desculpe — repeti.

— Eu sei.

Ficamos assim por um tempo.

Depois ela se levantou, beijou minha testa e recolheu as tigelas que ainda estavam na mesa. Eu quis ajudá-la. Ela deixou. Talvez porque precisasse. Talvez porque soubesse que eu precisava.

Quando a casa dormiu, saí.

Não fui para o campo.

Fui até a estrada.

A poeira deixada pelos cavalos já tinha se assentado, mas as marcas ainda estavam lá. Três trilhas de cascos indo embora da nossa casa, carregando nada além de um aviso entregue e uma consciência tranquila o bastante para continuar viagem.

Olhei na direção de Prymp.

Em algum lugar além da curva, havia comerciantes pagando menos porque podiam. Havia escritórios onde homens decidiam quais perdas eram aceitáveis desde que não fossem deles. Havia soldados com selos, registros, prazos.

E havia outras coisas também.

Eu sabia.

Toda cidade tinha trabalhos que não eram anunciados em praça aberta. Homens que precisavam de mãos fortes e perguntas fracas. Caçadas fora de época. Carga sem registro. Problemas que deviam desaparecer antes de chegar aos guardas.

Eu conhecia o mundo o bastante para saber onde a sujeira ficava.

Até aquela noite, saber era diferente de procurar.

Fiquei parado na estrada, ouvindo o silêncio quente ao redor da fazenda.

Um mês.

Pensei em Hati perguntando se as nuvens podiam se perder.

Pensei em Skoll oferecendo metade do pão.

Pensei em Orfina dizendo que sua felicidade era real.

Então pensei nas minhas mãos.

Mãos serviam para plantar. Consertar. Segurar. Proteger.

Também serviam para outras coisas.

Voltei para casa antes que esse pensamento terminasse de se formar.

Mas ele voltou comigo.

Voltar ao sumário

Capítulo 4

Mãos Fortes, Perguntas Fracas

No dia seguinte, fui a Prymp sem levar Hati.

Ele percebeu antes de eu dizer.

Crianças tinham um talento injusto para notar mudanças pequenas quando os adultos estavam tentando fingir que elas não existiam. Hati apareceu na porta ainda esfregando os olhos, cabelo vermelho amassado de um lado, camisa torta, pés descalços no chão frio.

— Eu vou com você?

Eu estava ajustando a correia da carroça.

Demorei meio segundo a mais para responder.

Ele viu.

— Ah.

Aquilo foi pior do que se tivesse reclamado.

— Hoje não.

— Porque não tem doce?

— Porque vou resolver coisas chatas.

— Eu sou bom com coisas chatas.

Skoll surgiu atrás dele, já acordado demais para alguém daquela idade.

— Você uma vez dormiu enquanto a mãe explicava como dobrar lençol.

— Lençol não conta.

— Conta muito para a mãe.

— Vocês dois contam muito para mim — disse Orfina, aparecendo no corredor. — E é por isso que vão comer antes de começar qualquer disputa filosófica sobre tecido.

Hati olhou para mim de novo.

Havia perguntas em seu rosto. Algumas ele sabia fazer. Outras ainda eram grandes demais para sair pela boca.

Agachei diante dele.

— Eu volto antes do jantar.

— Promete?

Promessas estavam se tornando comuns demais naquela casa.

Eu odiava isso.

— Vou tentar — respondi.

Ele fez uma careta.

— Essa resposta é ruim.

— É a que eu tenho.

Skoll se encostou no batente da porta.

— Traz alguma coisa chata, então.

— O que seria uma coisa chata?

— Não sei. Uma pedra. Um botão. Uma faca.

Orfina olhou para ele.

— Um botão — corrigiu Skoll.

— Muito melhor — disse ela.

Tentei sorrir.

Não consegui direito.

Orfina percebeu. Claro que percebeu. Ela sempre tinha um jeito de ver a rachadura antes mesmo que eu ouvisse o estalo.

Quando os meninos entraram, ela veio comigo até a carroça.

— Você vai procurar trabalho.

Não era pergunta.

— Vou.

— Em Prymp?

— Onde houver.

Ela apertou o xale nos ombros. A manhã ainda não estava fria. Talvez ela só precisasse segurar alguma coisa.

— Que tipo de trabalho?

Eu poderia ter dito carga. Cerca. Entrega. Conserto. Qualquer palavra com madeira, peso e suor suficiente para parecer limpa.

Mas Orfina já conhecia essas palavras.

E me conhecia.

— O que pagar — falei.

Ela fechou os olhos por um instante curto demais para ser descanso.

— Astel.

— Não vou fazer nada estúpido.

Foi uma frase infeliz.

Nós dois percebemos.

— Isso não é uma medida muito precisa — disse ela.

Quase ri.

Quase era o tipo de riso que se podia pagar.

— Vou procurar trabalho honesto primeiro.

Primeiro.

A palavra ficou entre nós como um objeto largado no chão.

Orfina olhou para mim com uma tristeza quieta.

— Volte para casa — disse.

— Sempre.

Dessa vez, não me perguntou se eu prometia.

Fui embora antes que ela pudesse mudar de ideia sobre não perguntar.


Prymp estava mais seca também.

Não como a fazenda. Cidades escondiam melhor suas doenças. Tinham pedra, telha, fumaça, vozes, cheiro de forno, barris de água trazidos de longe por quem podia pagar. Mas havia sinais.

O padeiro tinha reduzido o tamanho dos pães.

O vendedor de frutas deixava as melhores peças mais atrás, longe das mãos rápidas.

No mercado, duas mulheres discutiam por causa do preço de um saco de grãos como se estivessem tentando arrancar chuva uma da outra aos gritos.

Passei por uma loja de pergaminhos mágicos com uma placa nova na vitrine: encantamentos de purificação de água, preço especial.

Preço especial ainda era mais do que eu tinha.

Dentro, um homem com anéis demais nas mãos mostrava um cilindro de prata para um casal bem vestido. O objeto brilhava com runas azuis, bonito e inútil para qualquer pessoa que precisasse escolher entre aquilo e comida.

Continuei andando.

Procurei trabalho honesto primeiro.

Essa parte importa.

Não para absolver. Absolvição era coisa de templo, e templos também cobravam por velas.

Importa porque eu procurei.

Falei com um carroceiro que precisava descarregar barris. Ele já tinha contratado dois rapazes por metade do que o trabalho valia. Falei com um marceneiro que precisava reforçar um galpão. Pagaria depois da próxima venda. Falei com um mercador de tecidos que me olhou as mãos, a roupa, as botas, e decidiu que eu era útil demais para entrar pela porta da frente e caro demais para a dos fundos.

Ao meio-dia, eu tinha conseguido três cobres carregando sacos de farinha.

Três.

Um deles caiu no chão quando o recebi. Rolei atrás dele por baixo de uma banca enquanto dois homens riam.

Peguei a moeda.

Não porque valesse o gesto.

Porque Hati tinha perguntado sobre doces olhando para mim como se o mundo ainda fosse um lugar onde pais resolviam coisas.

Fiquei com a moeda apertada na mão até a borda marcar minha pele.

Depois fui para a parte de Prymp onde as ruas ficavam estreitas demais para carroças e largas o bastante para arrependimentos.

Toda cidade tinha uma.

Não era necessariamente pobre. Pobreza era honesta demais para aquilo. Era uma região de portas sem placas, janelas fechadas em pleno dia, tavernas onde ninguém perguntava seu nome antes de saber se você podia causar problema. O tipo de lugar que existia porque gente respeitável precisava de serviços que não queria admitir em lugares respeitáveis.

Entrei numa taverna chamada O Barril Partido.

O nome era ruim.

O cheiro também.

Havia quatro mesas ocupadas, uma lareira apagada e um anão atrás do balcão limpando a mesma caneca com um pano que provavelmente piorava tudo que tocava. Ele levantou os olhos para mim, mediu minha altura, minhas mãos, a faca no cinto, a poeira nas botas.

— Bebida?

— Trabalho.

Ele continuou limpando.

— Escritório de ofícios fica na praça norte.

— Já passei lá.

— Então não sei de nada.

— Claro.

Virei para sair.

— Espere.

Parei.

O anão apoiou a caneca no balcão.

— Que tipo de trabalho?

Olhei para as minhas mãos.

Terra nas unhas. Calos velhos. Pequenos cortes de cerca, corda e ferramenta.

Mãos honestas, se alguém acreditasse nesse tipo de coisa.

— O que pagar.

Ele soltou um som pelo nariz.

— Essa frase costuma cobrar caro depois.

— Estou contando com antes.

Dessa vez, ele quase sorriu.

Apontou com o queixo para uma porta nos fundos.

— Fale com Maeron.

— Quem é Maeron?

— Se ele quiser que você saiba, ele diz.

Passei pela porta.

O corredor atrás da taverna era estreito e cheirava a cerveja velha, couro úmido e fumaça. No fim dele, havia um pequeno pátio cercado por muros. Três pessoas estavam ali.

Uma mulher humana afiava uma lâmina curva sentada sobre uma caixa.

Um meio-elfo magro separava flechas em dois montes, descartando as empenadas com irritação silenciosa.

E um homem de barba grisalha, cabelos presos e olhos claros demais para o rosto gasto estava apoiado contra o muro, com os braços cruzados.

Ele olhou para mim como quem avalia uma ferramenta que pode ou não quebrar no primeiro uso.

— Você é Maeron? — perguntei.

— Depende de quem pergunta.

— Astel.

— Isso não responde muita coisa.

— Responde o suficiente para começar.

A mulher da lâmina riu baixo.

Maeron não.

— Fazendeiro?

— Sim.

— Ao sul?

— Sim.

— Seca pegou vocês.

— Pegou todo mundo.

— Todo mundo não veio aqui.

O meio-elfo descartou outra flecha.

— Ainda.

Maeron inclinou a cabeça, talvez concordando.

— Sabe caçar?

— Sei.

— Sabe ficar quieto?

— Quando vale a pena.

— Sabe obedecer?

— Depende da ordem.

Agora a mulher sorriu de verdade.

Maeron me observou por mais alguns segundos.

— Há cervos nas matas a oeste. Pertencem à reserva do senhor de Prymp durante esta estação.

Ali estava.

O primeiro passo raramente vinha com chifres, fumaça e um juramento sombrio. Às vezes era só uma frase dita num pátio sujo atrás de uma taverna ruim.

— Caça proibida — falei.

— Caça controlada.

— Nome bonito.

— Nomes bonitos são metade da lei.

Não gostei dele.

Isso também importa.

Seria mais fácil contar a história se Maeron fosse carismático. Se tivesse feito um discurso sobre injustiça, fome, nobres gordos e crianças pobres. Se tivesse me convencido.

Não convenceu.

Só ofereceu.

— Quanto? — perguntei.

Ele disse o valor.

Por um instante, o pátio ficou silencioso demais.

Era mais do que eu conseguiria em semanas de trabalho honesto, se trabalho honesto aparecesse, se a colheita segurasse, se ninguém ficasse doente, se o céu lembrasse como produzir chuva.

Era quase o suficiente para transformar um mês em possibilidade.

Quase.

Essa palavra me perseguia.

— Metade agora — falei.

Maeron arqueou uma sobrancelha.

— Você ainda não fez nada.

— Então contrate alguém que não precise comer hoje.

A mulher parou de afiar a lâmina.

O meio-elfo olhou para mim pela primeira vez.

Maeron não se moveu.

— Tem família.

Não respondi.

Ele tirou um pequeno saco do cinto e jogou.

Peguei no ar.

Pesava.

Não muito.

Mas pesava de um jeito que três cobres nunca poderiam pesar.

— Metade — disse ele. — O resto quando voltar com as peças. Saímos ao cair da noite. Sem brasão, sem nome, sem conversa. Se guardas aparecerem, você não conhece ninguém.

— Conheço muito pouca gente por escolha própria.

— Ótimo. Continue assim.

Guardei o dinheiro.

Parecia quente demais contra meu corpo.


Voltei para casa antes de sair de novo.

Foi covardia e coragem ao mesmo tempo.

Covardia porque eu queria ver os três antes de fazer o que já tinha aceitado.

Coragem porque vê-los tornava mais difícil fingir que era apenas trabalho.

Hati correu até mim assim que a carroça parou.

— Você voltou antes do jantar!

— Eu disse que tentaria.

— Então funcionou.

Ele olhou para minhas mãos.

— Trouxe botão?

Eu tinha esquecido.

Claro que tinha.

A expressão dele caiu só um pouco, e aquele pouco foi suficiente para me atravessar.

— Trouxe outra coisa — falei.

Entreguei uma moeda pequena.

Ele olhou como se eu tivesse lhe dado uma chave para um reino.

— Posso ficar?

— Pode.

— Para comprar doce?

— Para guardar.

— Guardar para comprar doce depois?

— Hati.

— Tá bom. Guardar.

Skoll apareceu por trás dele.

— Eu também ganhei algo chato?

— Ganhou a chance de ajudar sua mãe enquanto eu saio de novo.

— Isso é muito chato.

— Você pediu.

— Eu pedi um botão.

— Devia ter sido mais específico.

Ele fez uma careta, mas olhou para a carroça, depois para mim.

Skoll notava coisas.

Mais do que eu queria.

— Você vai sair de novo?

— Vou.

— À noite?

— Sim.

— Trabalho?

— Sim.

A mentira não estava na palavra.

Estava em todo o resto que deixei fora dela.

Orfina esperava na porta.

Não sorriu.

Não na frente dos meninos.

— Entrem — disse ela a eles. — Lavem as mãos.

— Mas eu nem sujei — disse Hati.

Orfina olhou para ele.

Hati olhou para as próprias mãos, descobriu sujeira como se ela o tivesse traído, e entrou.

Skoll demorou meio segundo mais.

Depois foi.

Quando ficamos sozinhos, Orfina desceu os degraus.

— Que trabalho?

Eu poderia ter mentido melhor.

Já tinha mentido antes, em lugares piores, para pessoas menos importantes.

Mas algumas mentiras morriam ao chegar perto dela.

— Caça.

Ela entendeu rápido demais.

— Onde?

— Oeste.

— Astel.

— É uma noite.

— Onde?

Não respondi.

Ela olhou para o caminho, para Prymp, depois para mim.

— Reserva.

Ouvir a palavra na boca dela foi pior.

— Pagam bem.

— Imagino.

— O suficiente para ganhar tempo.

— E se for preso?

— Não vou ser.

— Você não sabe disso.

— Sei o bastante.

Ela cruzou os braços. Não como defesa. Como se estivesse segurando a si mesma no lugar.

— Isso não é só pegar um animal na mata.

— Para mim é.

— Não é.

Eu queria que ela gritasse.

Queria que me proibisse, que me chamasse de idiota, que me desse uma briga grande o bastante para eu usar como desculpa para sair irritado em vez de sair culpado.

Mas Orfina não me deu esse presente.

— Você está fazendo isso por nós — disse ela.

— Estou.

— Eu sei. Esse é o problema.

Olhei para ela.

— O problema é perdermos a casa.

— Também.

— Não há outro jeito rápido.

— Talvez não.

A honestidade dela me irritou mais do que uma acusação.

— Então?

Orfina ficou em silêncio.

O vento mexeu alguns fios soltos de seu cabelo. Atrás dela, dentro da casa, ouvi Hati falando alguma coisa alto demais e Skoll respondendo no mesmo tom. A vida continuava tentando ser vida, mesmo quando nós dois estávamos parados do lado de fora discutindo quanto dela podíamos sujar para preservar o resto.

— Volte — disse ela enfim.

— Eu vou.

— Inteiro.

— Vou tentar.

Ela fechou os olhos.

— Hoje eu odeio essa resposta.

— Eu também.

Ela se aproximou e tocou meu rosto.

Por um instante, fui jovem de novo em Baldur's Gate, antes da fazenda, antes dos meninos, antes de impostos e seca e pátios atrás de tavernas. Fui apenas um homem que não entendia como alguém como ela podia rir das minhas piadas ruins.

Depois o instante passou.

— Não deixe que isso vire quem você é — disse ela.

Não prometi.

Era isso ou mentir.


Saí ao cair da noite.

Maeron, a mulher da lâmina e o meio-elfo esperavam perto da estrada oeste. Havia mais dois homens com eles, ambos quietos, ambos com arcos bons demais para trabalhadores comuns e roupas simples demais para guardas.

Ninguém perguntou se eu tinha mudado de ideia.

Era uma cortesia.

Ou uma forma de desprezo.

A mata a oeste de Prymp era mais úmida do que os campos, mas até ali a seca deixava sinais. Folhas quebravam sob as botas com facilidade. O ar carregava poeira. Os pequenos córregos que deveriam cortar o caminho estavam baixos, pedras aparecendo no leito como ossos.

Caminhamos em silêncio.

Caçar sempre tinha sido simples para mim.

Não fácil. Simples.

Você observava. Esperava. Lia marcas no chão, galhos partidos, fezes, cheiro, direção do vento. Respeitava o animal o bastante para não fingir que ele queria morrer. Matava rápido. Levava o que precisava. Agradecia, se acreditasse nesse tipo de coisa. Eu nunca soube se acreditava, mas sempre desperdicei pouco.

Aquilo era diferente.

Não por ser ilegal.

A lei nunca teve minha devoção.

Era diferente porque eu não estava ali por carne, nem por pele, nem por necessidade direta. Estava ali porque alguém em algum lugar havia decidido que aqueles animais pertenciam a uma reserva, que a reserva pertencia a um senhor, que o senhor devia ter direito ao excesso enquanto meus filhos contavam pedaços de pão.

Eu podia transformar isso em raiva.

Raiva ajudava.

Mas raiva também facilitava demais certas coisas.

Encontramos os cervos perto de uma clareira baixa.

Três fêmeas e um macho jovem.

Magros.

Todos estavam mais magros do que deveriam.

Maeron ergueu dois dedos.

Dois animais.

A mulher à minha esquerda preparou o arco.

Eu também.

O primeiro disparo foi dela.

Limpo.

O segundo foi meu.

Mais limpo.

O cervo caiu quase sem som.

Essa foi a parte que me perseguiu depois.

Não houve luta. Não houve guardas. Não houve escolha dramática diante de uma lâmina. Só houve mira, respiração, corda soltando, corpo caindo.

Trabalho bem-feito.

Trabalho errado.

Carregamos os animais para longe da clareira antes de abrir a carne. Fizemos isso rápido, em silêncio, sob luz fraca. Minhas mãos sabiam o que fazer. Isso me incomodou. Ter habilidade para uma coisa não dizia se você devia fazê-la.

Em determinado momento, ouvi um som entre as árvores.

Todos pararam.

Maeron apagou a lanterna coberta.

Escuridão.

Folhas.

Respirações presas.

Uma voz distante.

Guardas ou caçadores de verdade. Não dava para saber.

A mulher da lâmina segurou a faca perto do corpo.

O meio-elfo pôs uma flecha na corda.

Eu fiquei imóvel com sangue até os pulsos.

Naquele instante, pensei em Orfina.

Não em seu aviso. Não em sua tristeza.

Pensei nela dobrando guardanapos antes de um jantar pobre para lembrar à casa que ainda era casa.

E ali estava eu, no escuro, coberto de sangue, esperando descobrir se precisaria derramar mais para voltar a ela.

As vozes passaram longe.

Ninguém nos viu.

Depois de alguns minutos, Maeron fez sinal para continuar.

Continuamos.

O mundo não ofereceu castigo.

Isso foi o pior.


Recebi o restante antes do amanhecer.

Maeron contou as moedas no mesmo pátio atrás da taverna. Uma a uma. Como se dinheiro sujo precisasse ser medido com mais cuidado.

— Você trabalha bem — disse ele.

— Eu sei.

— Posso ter mais serviço em dois dias.

— Não sei se venho.

Ele soltou uma risada curta.

— Sabe sim.

Guardei as moedas.

Não bati nele.

Também não respondi.

Algumas coisas eram vitória o bastante.

Prymp ainda dormia quando atravessei as ruas. A cidade parecia mais honesta antes de acordar. Sem gritos, sem barganhas, sem vitrines tentando convencer gente pobre de que maravilha era uma questão de preço.

Parei diante de uma padaria abrindo.

O cheiro de pão quente saiu para a rua.

Comprei dois pães.

Depois parei na barraca de doces, ainda sendo montada por um rapaz sonolento que me olhou como se eu fosse uma aparição ruim.

— Está aberto?

— Ainda não.

Coloquei uma moeda no balcão improvisado.

Ele abriu.

Comprei balas de mel para Hati.

Fiquei olhando para elas embrulhadas em papel fino.

Pareciam pequenas demais para o que custaram.

Pareciam grandes demais para o que significavam.

Também comprei linha boa para Orfina, pregos novos, uma dobradiça para o galinheiro e um botão azul que Skoll provavelmente fingiria não gostar antes de usar em alguma máscara.

Voltei para casa com a carroça quase vazia e os bolsos menos leves.

O céu começava a clarear quando a fazenda apareceu.

Por um momento, antes de chegar, vi a casa como alguém de fora veria. Madeira simples. Telhado cansado. Cerca remendada. Campo seco. Nenhum luxo. Nenhuma grandeza.

Minha casa.

Orfina estava acordada.

Claro que estava.

Sentada na varanda, com um xale nos ombros, como se tivesse decidido vigiar a noite até que ela me devolvesse.

Quando me viu, levantou.

Não correu.

Orfina raramente corria quando estava assustada. Ela se aproximava com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar aquilo que ainda estava inteiro.

Parei diante dela.

Por um segundo, nenhum de nós falou.

Eu tinha lavado as mãos em Prymp.

Mesmo assim, sentia sangue nelas.

— Voltei — disse.

— Inteiro?

— Inteiro.

Ela olhou meu rosto, minhas roupas, minhas mãos.

Não perguntou se tinha dado certo.

Isso me disse que ela já sabia.

Entreguei o pão primeiro.

Depois a linha.

Depois os pregos.

Depois o botão.

Por último, as balas.

Orfina olhou para o pequeno pacote de doces.

Havia tantas coisas naquele olhar que eu não consegui sustentar.

— Ele vai ficar feliz — falei.

— Eu sei.

— Comprei a dobradiça também.

— Astel.

— Precisávamos dela.

— Eu sei.

Ela fechou os dedos ao redor do pacote de linha.

— Quanto isso custou?

O dinheiro, ela queria dizer.

E não queria.

— Menos do que perder a casa.

Foi uma resposta cruel.

Eu soube assim que disse.

Orfina absorveu o golpe em silêncio.

Não merecia.

Nenhuma parte dela merecia.

— Desculpe — falei.

Minha voz saiu menor do que eu pretendia.

Ela deu um passo e encostou a testa no meu peito.

Só isso.

Não perdão.

Não aprovação.

Presença.

Às vezes, presença era mais difícil de aceitar do que qualquer julgamento.

Envolvi-a com os braços.

Por cima do ombro dela, vi Hati aparecer na janela, ainda sonolento. Seus olhos encontraram o pacote de doces na mão da mãe e se arregalaram como se a manhã tivesse acabado de se tornar sagrada.

Skoll apareceu atrás dele, cabelo loiro bagunçado, viu o botão azul e sorriu antes de lembrar que provavelmente deveria parecer indiferente.

Orfina sentiu meu corpo mudar.

— Eles estão olhando? — perguntou, voz baixa contra minha camisa.

— Estão.

— Então sorria.

— Não sei se consigo.

Ela se afastou o bastante para olhar meu rosto.

Com os dedos, tocou o canto da minha boca, não para forçar um sorriso, mas para me lembrar de onde ele ficava.

— Tente.

Tentei.

Hati abriu a porta e correu até nós.

— Isso é doce?

— Bom dia para você também — disse Orfina.

— Bom dia. Isso é doce?

Skoll veio atrás, mais devagar.

— E aquilo é um botão?

— Vocês dois são previsíveis — falei.

— Isso quer dizer sim? — perguntou Hati.

Entreguei o pacote.

Ele segurou como se fosse tesouro.

Skoll pegou o botão azul e o examinou contra a luz.

— Serve.

— Que elogio generoso.

— Posso fazer uma identidade nova com isso.

— Você tem dez anos. Não precisa de uma identidade nova.

— É exatamente o que alguém com identidade falsa diria.

Hati já estava tentando abrir o pacote com os dentes.

Orfina impediu sem olhar.

— Depois do café.

— Mas—

— Depois.

— Só uma?

— Hati.

Ele suspirou como um homem condenado por injustiça histórica.

E eu ri.

De verdade, dessa vez.

Curto.

Baixo.

Mas ri.

Por um instante, quase pareceu que a noite tinha valido a pena.

Esse quase foi a coisa mais perigosa que trouxe para casa.

Não as moedas.

Não o sangue que eu ainda sentia nas mãos.

Não o nome de Maeron guardado na parte escura da cabeça.

O perigo era mais simples.

Eu tinha feito algo errado.

E a casa tinha respirado melhor naquela manhã.

Quando Hati abraçou minha perna com o pacote de doces na mão, quando Skoll correu para buscar as tintas e combinar a nova cor com o botão, quando Orfina colocou pão quente na mesa e fingiu que não estava prestes a chorar de cansaço, entendi uma coisa que preferia nunca ter aprendido.

Um homem podia atravessar uma linha por amor.

E, se encontrasse a família sorrindo do outro lado, talvez atravessasse de novo.

Voltar ao sumário

Capítulo 5

A Casa Não Respondeu

Depois da primeira caçada, veio a segunda.

Não no dia seguinte.

Eu queria poder dizer isso.

Queria dizer que voltei ao Barril Partido sem hesitar, que aceitei o próximo serviço como alguém que já tinha escolhido um caminho e agora só precisava caminhar. Seria mais limpo. Pior, talvez, mas mais fácil de entender.

Não foi assim.

Passei dois dias trabalhando na fazenda como se pudesse arrancar o dinheiro da terra pela força. Consertei a cerca inteira, inclusive o trecho que ainda aguentaria mais uma estação. Troquei a dobradiça do galinheiro. Virei canteiros que não prometiam nada. Carreguei água até meus braços doerem e minhas mãos tremerem ao fechar.

No terceiro dia, fui a Prymp.

Trabalho honesto primeiro.

Essa frase começou a virar uma oração sem deus.

Carreguei madeira. Recebi pouco. Descarreguei sacos de cevada. Recebi menos. Um comerciante me ofereceu pagamento em crédito para a própria loja, como se meus impostos pudessem ser quitados em botões, linha e restos de tecido.

No fim da tarde, passei diante da rua estreita que levava ao Barril Partido.

Não entrei.

Voltei para casa com moedas demais para chamar de nada e de menos para chamar de esperança.

Orfina não perguntou.

Hati perguntou se eu tinha visto o vendedor de doces.

Skoll perguntou se o botão azul poderia ser usado como olho falso num disfarce de fantasma.

Eu respondi aos dois.

Beijei Orfina na testa.

Comi o jantar.

Dormi pouco.

No quarto dia, entrei no Barril Partido.

Maeron estava no pátio dos fundos, como se tivesse me deixado ali desde a última vez e eu só tivesse demorado a chegar.

— Demorou — disse ele.

— Não trabalho para você.

— Ainda assim demorou.

Eu deveria ter ido embora.

Em vez disso, perguntei:

— Qual é o serviço?

Ele me contou.

Outra mata. Outro animal. Outro nome bonito para uma lei feita por gente distante. A diferença era que dessa vez ele precisava que eu passasse a noite fora e voltasse pela manhã, antes das patrulhas mudarem.

— Não.

Maeron não pareceu surpreso.

— Paga o dobro.

— Eu disse não.

— Disse.

Ele esperou.

Eu odiei isso nele.

Odiava mais ainda que funcionasse.

— Por quê? — perguntei.

— Porque é mais longe. Porque tem mais risco. Porque o comprador quer a peça inteira e fresca. Porque você precisa do dinheiro.

— Você fala demais.

— Você escuta o suficiente.

Saí sem aceitar.

Cheguei até a praça norte.

Fiquei diante do escritório de arrecadação por tempo bastante para ver três pessoas entrarem e duas saírem piores do que entraram. A terceira não saiu enquanto eu estive ali. Talvez tivesse conseguido uma extensão. Talvez tivesse desmaiado lá dentro. Talvez tivesse nome.

Entrei.

O homem atrás da mesa tinha mãos limpas e unhas cuidadas. Usava uma pena encantada que copiava as palavras dele em dois livros ao mesmo tempo. Aquilo me irritou mais do que deveria. Uma pena mágica para registrar dívidas de gente que não tinha água suficiente para salvar repolhos.

Expliquei.

Ele ouviu com a expressão vazia de quem tinha treinado o rosto para não desperdiçar empatia.

— A seca atingiu minha propriedade — falei. — A colheita caiu, os pagamentos em Prymp diminuíram, e preciso de extensão do prazo.

— Nome?

— Astel Nightshade.

A pena escreveu.

— Localização?

— Ao sul de Prymp.

A pena escreveu.

— Valor devido?

Entreguei o aviso.

Ele leu.

Não demorou.

— O prazo já é a extensão aplicada para propriedades rurais afetadas.

— Um mês não é extensão. É contagem regressiva.

Ele ergueu os olhos.

— Senhor Nightshade, a coroa entende a dificuldade atual da região.

Eu olhei para a pena mágica.

— Imagino que entenda muito.

— Se o pagamento parcial for feito antes da data final, isso pode ser registrado como boa-fé.

— E impede o confisco?

— Não necessariamente.

— Então para que serve?

Ele juntou as mãos sobre a mesa.

— Para constar.

Para constar.

Havia frases que mereciam ser enterradas longe de gente viva.

Saí do escritório sem bater a porta.

Foi uma grande demonstração de autocontrole.

Voltei ao Barril Partido.

Maeron ainda estava lá.

— Metade agora — falei.

Ele sorriu pouco.

— Claro.


Não contei a Orfina daquela vez.

Essa é uma das verdades que eu gostaria de escrever de outro jeito.

Eu poderia dizer que omiti para protegê-la. Que ela já tinha medo suficiente. Que contar não mudaria nada além de dar a ela mais uma noite acordada. Todas essas coisas eram verdadeiras.

Também eram desculpas.

Não contei porque havia uma chance de ela me pedir para ficar.

E havia uma chance pior.

A de eu ficar.

Disse que tinha conseguido serviço descarregando carga até tarde e que talvez dormisse em Prymp se terminasse depois do fechamento dos portões internos. Não era uma mentira inteira. Eu disse "serviço". Eu disse "talvez". Eu disse palavras pequenas e deixei que fizessem o trabalho sujo.

Orfina me ouviu com as mãos paradas sobre a massa do pão.

— Esta noite?

— Esta noite.

— É seguro?

Pensei na mata. Nas patrulhas. Nas lâminas. Em Maeron.

— Seguro o bastante.

Ela fechou os olhos.

— Você está ficando muito bom em respostas ruins.

— Eu sei.

Hati entrou correndo antes que eu pudesse dizer mais, segurando duas balas de mel.

— Pai, olha! Eu guardei uma para você e uma para mim.

— Você guardou?

— Por quase dois dias.

Skoll apareceu atrás dele.

— Um recorde histórico.

Hati ignorou.

Estendeu uma das balas para mim.

Peguei.

O papel fino grudou um pouco nos meus dedos.

Eu não queria doce.

Queria que ele nunca tivesse precisado aprender a guardar uma alegria para depois.

— Obrigado — falei.

Ele sorriu, orgulhoso.

— Para dar sorte no trabalho chato.

Fechei os dedos ao redor da bala.

— Vai ajudar.

Skoll olhou para minha bolsa perto da porta.

— Você volta amanhã?

— Volto.

— Cedo?

— Espero que sim.

— Essa também é uma resposta ruim.

— Estou colecionando.

Ele não riu.

Isso me atingiu mais do que eu esperava.

Orfina limpou as mãos num pano e veio até nós. Arrumou a gola da camisa de Hati, tirou uma linha solta do ombro de Skoll, depois parou diante de mim.

— Coma antes de sair.

— Não estou com fome.

— Eu não perguntei.

Então comi.

Pão, caldo, um pouco de queijo. Hati contou uma história sobre como uma das galinhas o encarou com intenções criminosas. Skoll afirmou que poderia treinar a galinha para espionagem se recebesse investimento adequado. Orfina corrigiu a postura dos dois à mesa e fingiu que não percebia como eu olhava para cada rosto mais do que o normal.

Quando saí, Hati me abraçou pela cintura.

Skoll bateu meu punho com a seriedade de alguém selando um pacto clandestino.

Orfina me acompanhou até a estrada.

— Astel.

Parei.

A noite ainda era jovem. O céu estava limpo. Nenhuma nuvem. Nenhuma misericórdia.

Ela tocou a minha mão.

— Volte para casa.

Eu deveria ter dito algo simples.

Disse:

— Sempre.

Na época, eu ainda não sabia que uma palavra podia sobreviver à coisa que prometia.


A caçada deu errado antes de começar.

O comprador mudou o ponto de entrega. Maeron praguejou por cinco minutos inteiros sem repetir uma palavra. A mulher da lâmina, que eu soube se chamar Sera, queria desistir. O meio-elfo disse que já estávamos ali, o que era o tipo de argumento que homens usam quando querem fingir que teimosia é lógica.

Seguimos.

Mais longe.

Mais fundo.

A mata naquela região era antiga e fechada, com árvores largas, raízes expostas e sombras que pareciam pertencer a outro horário do dia. A seca chegava ali também, mas mais devagar. O chão ainda guardava alguma umidade sob as folhas mortas. Havia rastros recentes perto de um córrego baixo.

O alvo era um javali grande, marcado por uma cicatriz clara no flanco. Pertencia às reservas de caça de alguma família que provavelmente nunca tinha pisado naquele barro. Valia mais vivo para eles como símbolo do que morto para nós como carne.

Para mim, valia em moedas.

Eu não gostava dessa parte de mim.

Mas naquela noite ela estava trabalhando.

Encontramos o animal depois da meia-noite.

Ele era maior do que Maeron havia dito.

Claro que era.

Planos ruins sempre economizam na descrição do perigo.

O primeiro disparo do meio-elfo acertou alto demais. O javali gritou, um som feio, quase humano, e disparou entre as árvores. Sera xingou. Maeron mandou cercar. Eu corri pela esquerda, tentando cortar o caminho antes que ele chegasse a uma área de pedra onde os rastros se perderiam.

O mundo virou respiração, galhos, lama seca, folhas quebrando sob as botas.

Por alguns minutos, não pensei na casa.

Isso também me envergonha.

O corpo em perigo fica egoísta. Ele reduz tudo ao próximo passo, ao próximo som, ao peso da faca, ao ângulo do arco. Não há impostos dentro de uma perseguição. Não há filhos. Não há esposa esperando acordada na varanda.

Há apenas sobreviver ao instante.

Alcancei o javali perto de uma vala rasa.

Ele virou.

Vi os olhos. Vi espuma no focinho. Vi a flecha presa torta. Vi medo transformado em fúria.

Depois ele veio.

Não houve tempo para arco.

Joguei-me para o lado, senti a presa rasgar minha coxa, rolei na terra e bati contra uma raiz. A dor subiu branca, quente, imediata. O javali virou de novo.

Minha mão encontrou a faca.

Quando ele atacou, eu não pensei.

A faca entrou sob a mandíbula, para cima.

O peso dele caiu sobre mim.

Por alguns segundos, fiquei preso sob carne, sangue e calor, ouvindo o animal morrer perto demais do meu rosto.

Quando Maeron e os outros chegaram, eu já tinha empurrado o corpo para o lado e estava sentado no chão, pressionando a coxa.

— Consegue andar? — perguntou Sera.

— Consigo.

Maeron olhou o corte.

— Vai precisar limpar isso.

— Impressionante. Achei que devia cultivar.

Sera riu.

Maeron não.

O trabalho levou mais tempo por causa da ferida. Limpamos, carregamos, mudamos a rota duas vezes para evitar patrulha. Quando finalmente entregamos a peça, o céu já estava clareando no leste.

Eu deveria ter voltado direto.

Mas Maeron pagou.

E, porque eu era estúpido, cansado, ferido e ainda preso à ideia de que dinheiro podia consertar tempo perdido, fui ao escritório de arrecadação assim que abriu.

Registrei pagamento parcial.

O mesmo homem das mãos limpas recebeu as moedas, contou, carimbou um papel e disse:

— Isso constará.

Quase perguntei se constar alimentava crianças.

Não perguntei.

Eu queria ir para casa.

Comprei ervas para limpar o corte, porque Orfina brigaria comigo se eu voltasse com a ferida suja. Comprei farinha, um pedaço pequeno de carne salgada, duas maçãs feias que Hati provavelmente chamaria de tesouro, e uma fita amarela simples que me lembrou os cabelos de Orfina.

Não sei por que comprei a fita.

Talvez culpa tenha mãos próprias.

Talvez, quando você não consegue salvar uma vida inteira, começa a comprar pedaços pequenos de beleza e torcer para que ninguém perceba o desespero.

Saí de Prymp mancando.

O caminho para casa pareceu mais longo.

O sol subiu.

O calor veio com ele.

Minha coxa latejava a cada passo do cavalo. A carroça rangia atrás, quase vazia. Eu estava sujo, cansado, com sono e com o bolso mais leve depois do pagamento parcial.

Mas havia um papel carimbado na bolsa.

Havia comida.

Havia uma fita amarela.

Havia maçãs.

Eu me agarrei a essas coisas como um homem se agarra a tábuas depois de um naufrágio, fingindo que madeira pequena pode ser chamada de costa.

Quando a fazenda apareceu ao longe, senti o corpo relaxar antes da cabeça.

Casa.

A palavra veio inteira.

Depois algo nela falhou.

O portão estava aberto.

Não muito. Só o bastante.

Eu tinha consertado aquele portão dois dias antes. Ele não abria sozinho.

Parei a carroça.

Escutei.

Nada.

A fazenda nunca era silenciosa daquele jeito.

Mesmo em dias ruins, havia galinhas. Vento nas folhas secas. Hati falando alto demais. Skoll derrubando alguma coisa e tentando convencer o mundo de que tinha sido estratégia. Orfina cantarolando baixo quando achava que ninguém ouvia.

Mas a casa não respondeu.

Desci.

A dor na coxa desapareceu.

Não curou. Só ficou irrelevante.

— Orfina?

Minha voz saiu normal demais.

Isso me assustou.

Caminhei até a varanda.

Havia uma caneca caída perto da porta.

Uma das nossas.

A azul lascada.

Hati gostava dela porque dizia que a lasca parecia uma lua.

— Hati?

Nada.

Empurrei a porta.

Ela abriu sem ranger.

Por alguma razão, foi isso que me deu medo.

A dobradiça tinha rangido todas as manhãs havia anos. Eu conhecia aquele som melhor do que conhecia muita gente. A casa sempre anunciava entrada. Reclamava. Respirava madeira velha.

Naquele dia, a porta ficou quieta.

Entrei.

O mundo acabou sem barulho.

Não de uma vez.

Nunca é de uma vez quando acontece por dentro.

Primeiro vi a mesa virada.

Depois o banco quebrado.

Depois a fita de pano que Skoll usava como capa, caída perto da lareira.

Depois sangue.

O corpo entende certas coisas antes da mente.

A mente é uma criatura covarde. Ela negocia. Ela divide. Ela tenta transformar forma em sombra, sombra em engano, engano em alguma explicação absurda onde tudo ainda pode ser desfeito com uma pergunta certa.

Meu corpo não negociou.

Ele ficou frio.

— Orfina.

Dessa vez, minha voz quebrou.

Ela estava no chão da sala.

Não vou escrever tudo.

Há coisas que a memória repete sozinha sem que eu ajude.

Havia sangue nos cabelos dela.

Havia uma das mãos estendida, como se tivesse tentado alcançar alguma coisa.

Ou alguém.

Caí de joelhos ao lado dela.

Toquei seu rosto.

Ainda era rosto.

Essa foi a crueldade.

Ainda era ela o bastante para eu esperar que abrisse os olhos.

— Orfina.

Disse o nome dela outra vez.

Depois outra.

Depois de novo.

Nomes são ferramentas pobres contra a morte, mas são as primeiras que pegamos.

Procurei respiração.

Pulso.

Calor.

Qualquer coisa.

Não encontrei.

Em algum lugar atrás de mim, havia outro corpo pequeno.

Não olhei de imediato.

Eu sabia.

E não sabia.

E enquanto eu não olhasse, talvez o mundo ainda estivesse decidindo.

Mas o mundo já tinha decidido.

Hati estava perto da parede, pequeno demais para tanto silêncio.

O pacote vazio das balas de mel estava amassado perto dele.

Eu engasguei com alguma coisa que não chegou a ser som.

Fui até ele arrastando um joelho, depois o outro, porque levantar parecia uma habilidade de outra pessoa. Peguei-o no colo com cuidado. Cuidado ridículo. Cuidado inútil. Cuidado de pai.

— Acorda — falei.

Não pedi.

Ordenei.

Como se ele fosse uma nuvem perdida e eu pudesse mandar voltar.

— Hati, acorda.

O cabelo vermelho dele grudou nos meus dedos.

Pensei na pergunta sobre placas no céu.

Pensei nas balas guardadas por dois dias.

Pensei em todas as vezes que disse "depois".

Alguma coisa dentro de mim começou a gritar.

Minha boca ainda não.

Ainda faltava Skoll.

Essa é a parte que quase não consigo lembrar em ordem.

Procurei perto da mesa. Perto da lareira. No quarto. Atrás da porta. Chamei seu nome até não reconhecer minha voz.

Encontrei-o no corredor.

Ou encontrei o que a minha mente aceitou como ele.

Havia cabelo loiro.

Havia a camisa que Orfina tinha remendado na semana anterior.

Havia o botão azul preso de qualquer jeito, como se ele tivesse tentado usá-lo antes de sair correndo para ser outra pessoa.

Eu não toquei nele de primeira.

Não por falta de amor.

Por excesso.

Eu tinha duas mãos e três mundos destruídos.

Não sabia qual ruína segurar primeiro.

Então o grito veio.

Não foi bonito.

Não foi humano.

Não foi algo que eu escolhi fazer.

Foi uma coisa arrancada de dentro, uma raiz inteira puxada da terra, levando junto tudo que ainda me prendia ao chão.

Gritei até a garganta rasgar.

Gritei até não haver ar.

Gritei até o silêncio voltar pior.

Depois não sei quanto tempo passou.

O sol mudou de lugar dentro da casa.

Em algum momento, eu estava sentado no chão com Orfina nos braços.

Em outro, Hati estava ao lado dela.

Em outro, Skoll.

Organizar os mortos é uma loucura pequena que os vivos inventam para não se jogar ao lado deles.

Limpei o rosto de Orfina com um pano.

Limpei o de Hati.

Limpei o de Skoll.

Não porque ajudasse.

Porque sujeira ainda era uma coisa que eu sabia remover.

Morte, não.

A fita amarela estava na minha bolsa.

Lembrei dela de repente, como se alguém tivesse sussurrado.

Peguei.

Minhas mãos tremiam tanto que demorei a desdobrar.

Coloquei nos cabelos de Orfina.

Ficou torta.

Ela teria arrumado.

Eu quase pedi que arrumasse.

Quase.

A palavra tinha me seguido por dias.

Quase suficiente.

Quase seguro.

Quase em casa.

Quase não significava nada.


Enterrei minha família atrás da casa.

Não naquele instante.

Antes, vomitei perto da cerca.

Depois procurei rastros.

Encontrei sinais demais e respostas de menos. Marcas na terra seca. Pegadas confusas. Um sulco perto da porta. Sangue onde não devia. Nada que me dissesse quem. Nada que me dissesse por quê.

Gritei nomes de gente que não estava ali.

Maeron.

Os soldados.

O rei.

Qualquer deus que tivesse coragem de ouvir.

Nenhum respondeu.

Então peguei a pá.

A terra estava dura.

Claro que estava.

A mesma terra que eu tinha implorado para abrir vida agora se recusava a abrir espaço para os mortos.

Cavei mesmo assim.

Cada golpe da pá subia pelos braços como punição. Minha coxa abriu de novo. Sangue desceu pela perna. Não parei. A dor era pequena. A dor tinha tamanho humano. O resto não.

Cavei três covas.

Depois parei.

Olhei para elas.

Três buracos atrás da casa.

Nada no mundo deveria permitir uma visão dessas.

Quando tentei levantar Orfina, quase caí.

Não pelo peso.

Pelo significado.

Levei-a primeiro.

Não sei se isso foi escolha. Talvez tenha sido instinto. Talvez eu ainda achasse que ela podia me ajudar com os meninos se eu a colocasse no lugar certo.

Deitei-a com cuidado.

Arrumei a fita amarela de novo.

Depois Hati.

Ele parecia leve demais.

Crianças não deveriam pesar tão pouco depois de levar tanto embora.

Coloquei a bala de mel que ele tinha me dado junto dele. A que eu não comi. Ainda estava no bolso, amassada, quente do meu corpo, inútil.

Depois Skoll.

O botão azul estava preso na camisa.

Deixei.

Pensei em identidades falsas.

Pensei que ele nunca precisaria de uma.

Pensei errado.

Cobri os três.

Terra sobre vestido.

Terra sobre cabelo vermelho.

Terra sobre botão azul.

Terra sobre tudo que eu tinha chamado de mundo.

Quando terminei, já era noite.

Ou talvez fosse outro dia.

O tempo tinha perdido a educação.

Fiquei de joelhos diante das covas.

A casa atrás de mim estava escura.

O campo à frente estava seco.

Acima, o céu continuava limpo.

Nenhuma nuvem.

Nenhum sinal.

Nenhuma desculpa.

Toquei a terra recém-aberta.

Ela ainda estava solta sob meus dedos.

Pela primeira vez em dias, a terra tinha cedido.

Tarde demais.

Eu quis rezar.

Não sabia para quem.

Quis pedir perdão.

Não sabia qual morte ouviria primeiro.

Quis morrer.

Isso eu sabia.

Mas então olhei para a terra sobre eles e uma coisa pior que vontade de morrer nasceu dentro de mim.

Recusa.

Não raiva ainda.

Raiva era quente.

Aquilo era frio.

Profundo.

Antigo.

Como uma porta de pedra se fechando por dentro.

— Não — falei.

Minha voz saiu destruída.

Mas saiu.

— Não.

A morte não respondeu.

Talvez tenha pensado que não precisava.

Apoiei as duas mãos na terra.

— Eu vou trazer vocês de volta.

Não foi uma promessa bonita.

Promessas bonitas pertenciam a casamentos, partidas, crianças pedindo doces.

Aquilo foi outra coisa.

Uma sentença.

Para mim.

Para o mundo.

Para qualquer lei, deus, rei, magia, preço ou abismo que tentasse ficar entre mim e eles.

— Eu vou trazer vocês de volta — repeti.

Dessa vez, a frase pareceu encontrar um lugar para morar.

Dentro do vazio.

Levantei quando minhas pernas permitiram.

Entrei na casa.

A porta não rangeu.

Fiquei parado na sala destruída, olhando para a mesa virada, para o banco quebrado, para o lugar onde a vida tinha acabado sem pedir licença.

Então peguei uma cadeira.

Sentei.

E esperei o amanhecer.

Não porque soubesse o que fazer.

Mas porque a noite tinha levado tudo que podia.

E, se o mundo ainda insistisse em existir pela manhã, eu faria dele meu problema.

Voltar ao sumário

Capítulo 6

No Lugar de Sempre

A primeira coisa que consertei foi o banco.

Uma das pernas tinha se partido junto ao encaixe. A madeira ainda era boa. Havia cola no galpão, um pedaço de cabo que eu podia cortar para fazer uma cavilha, corda para manter tudo apertado enquanto secava.

Fiquei algum tempo olhando para aquilo.

Depois fui buscar o martelo.

Levantar da cadeira abriu a ferida na coxa. O tecido estava grudado, e precisei apoiar a mão na mesa virada até a tontura passar. Não lembrava quando tinha bebido água pela última vez. Lembrava onde estava a caneca de Orfina.

Escolhi outra.

A água do balde tinha gosto de madeira. Bebi depressa demais, senti o estômago se contrair, esperei. Pela janela, a luz da manhã alcançava o chão em que eu não queria olhar.

Precisava limpar antes de trabalhar.

Peguei os panos.

Não vou dizer quanto tempo levei. Houve água que carreguei para fora, água que trouxe de volta, intervalos em que minhas mãos ficavam imóveis dentro do balde. Em uma dessas vezes, percebi que usava um pano bordado na ponta.

Orfina tinha feito aquilo numa tarde de chuva.

Tirei o pano da água. Lavei separado. Estendi atrás da cozinha, alisando a borda com os dedos, e procurei outro.

Quando terminei o chão, ergui a mesa.

Ela ficou torta.

Empurrei uma cunha sob o pé, ajustei, empurrei de novo. Orfina detestava quando a tigela de caldo se movia durante o jantar. Nunca reclamava da mesa. Dobrava um pedaço de pano, colocava sob a perna e continuava a conversa.

Eu sempre dizia que ia resolver.

Resolvi naquela manhã.


O banco precisou ficar amarrado até o dia seguinte.

Enquanto a cola secava, tirei as roupas do varal. Algumas tinham endurecido de tanto sol. Havia uma camisa de Hati com uma manga virada para dentro; puxei com cuidado, porque ele odiava quando o punho ficava enrolado e prendia seus dedos.

Dobrei as mangas sobre o peito.

Ficou errado.

Desdobrei e tentei de novo, do jeito que tinha visto Orfina fazer. A pilha dos meninos devia caber numa metade da prateleira. Skoll invadia a outra metade com peças que já não usava, mas que poderiam servir a alguma profissão inventada.

Guardei tudo sem mudar a divisão.

No nosso quarto, abri a janela para tirar o cheiro fechado. O lado de Orfina na cama estava desfeito. Um vinco atravessava o travesseiro, fundo no meio, quase nenhum nas bordas.

Alcancei o lençol.

Parei antes de puxar.

Ajeitei apenas a ponta que tocava o chão.

Havia coisas que podiam esperar.

Na cozinha, as provisões continuavam na bolsa. A carne precisava ser pendurada, a farinha guardada. Uma das maçãs tinha se machucado na viagem. Cortei a parte escura e pus o resto num prato.

Ao pegar a faca, encontrei sob a bolsa o papel carimbado de Prymp.

Meu pagamento parcial.

Li a data. Li meu nome. Na parte inferior, a assinatura do homem das mãos limpas confirmava que eu tinha entregado dinheiro suficiente para ser registrado.

Dobrei o papel pelas marcas antigas. Guardei junto aos documentos da casa.

Ainda iam precisar estar em ordem.

Comi a maçã de pé, sem perceber o gosto.

Só depois lembrei da perna.

Aqueci água, separei as ervas que tinha comprado e sentei com a faca para cortar o tecido grudado. Trabalhei devagar. Quando doeu mais, minha mão procurou por hábito a beirada da mesa onde Orfina costumava apoiar a bacia.

Ela teria colocado tudo ao alcance antes de começar.

Eu tinha esquecido a faixa limpa.

Precisei levantar para buscar.


As galinhas ainda precisavam de comida.

Aquilo me pareceu ofensivo por um momento. Depois fui alimentá-las.

Havia ovos nos ninhos. Recolhi os que encontrei e voltei segurando a cesta junto ao corpo. Não entrei pelo caminho de trás. De onde ficava o poço, eu podia ver a terra remexida além da casa, e ainda não conseguia carregar ovos enquanto olhava para ela.

Na porta da cozinha, antes de entrar, toquei o batente.

Minha mãe costumava parar assim.

Às vezes antes de uma viagem. Às vezes sem motivo que eu entendesse. Curvava a cabeça, dizia poucas palavras à Rainha e voltava ao que estava fazendo. Mesmo em Chathold, longe de Shadowfell, certos hábitos dela nunca precisaram de malas.

Eu tinha conservado aquele. Nem todos os dias. Lembrava quando lembrava, agradecia o que tinha, pedia proteção para quem saía.

Fechei os olhos.

— Guarda os meus até eu chegar.

As palavras saíram antes de eu escolher.

Fiquei com a palma na madeira, esperando conseguir dizer mais. Não consegui. Entrei e coloquei os ovos no lugar de sempre.


No terceiro dia, o banco suportou meu peso.

Passei a mão por cima do reparo. Uma ponta de madeira raspou meu dedo. Busquei a lixa e trabalhei até a superfície ficar lisa.

Hati costumava passar por ali correndo, com a mão arrastando no encosto.

Verifiquei outra vez.

Depois separei as ferramentas para vender.

Tinha pensado nisso antes, quando ainda se tratava de dinheiro para impostos. Algumas eram do meu pai. Eu conhecia o modo como ele guardava as peças, as reclamações sobre ferrugem, a irritação quando alguém deixava metal no chão úmido. Passei um pano em cada uma.

Uma enxada de reserva. A plaina que eu quase nunca usava. Duas peças boas que não precisava manter se o campo ia ficar parado por algum tempo.

Deixei o martelo.

Ainda havia uma janela que fechava mal.

No portão, amarrei o embrulho à carroça. Voltei para dentro, conferi o fogão, a janela dos meninos, o balde. A porta tinha chave, embora passasse mais tempo pendurada num prego do que trabalhando.

Girei duas vezes na fechadura.

Puxei para conferir.

Guardei a chave no bolso e fui a Prymp.


O homem que comprou as ferramentas disse que estavam gastas.

— Estão usadas — respondi.

Ele virou a plaina, examinou a lâmina, ofereceu pouco. Em outro dia, eu teria ido a mais três lugares. Naquele, fui a dois.

Consegui algumas moedas a mais.

Meu pai teria chamado aquilo de negócio ruim. Talvez fosse. Não queria imaginar a voz dele por tempo suficiente para decidir.

No Barril Partido, o anão apontou os fundos antes de eu perguntar.

Maeron estava conferindo uma correia. Olhou primeiro para minha perna.

— Se abriu de novo, não vai aguentar caminhada longa.

— Não vim por trabalho.

Ele esperou que eu continuasse. Havia uma fivela entre seus dedos. Eu acompanhei o movimento do metal porque olhar para o rosto dele exigia explicar por que estava ali.

— Minha família morreu.

A fivela parou.

Foi uma pausa curta.

— Quando?

— Na noite em que saímos.

Maeron me observou, depois baixou os olhos para a correia.

— Sabe quem foi?

— Não.

— Então cuidado com o que pergunta e para quem.

— Alguém foi atrás de vocês? Das caçadas?

— Ninguém veio atrás de mim.

Quis que ele acrescentasse alguma coisa. Um nome. Uma suspeita. Um motivo para aquela resposta não acabar tão depressa.

Maeron passou a correia pela fivela.

— Você contou a alguém onde a gente ia?

— Não.

— Certo.

Era isso que ele precisava saber.

Eu me apoiei no muro. A coxa latejava, e o cheiro de couro me embrulhava o estômago.

— Preciso encontrar alguém que entenda de trazer mortos de volta.

Dessa vez, ele deixou a correia de lado.

— Templos.

— Alguém que você conheça.

— Não conheço ninguém que faça isso pelo que você tem no bolso.

Fechei a mão.

— Você não sabe o que tenho no bolso.

— Sei quanto pago.

Ficamos em silêncio. Do outro lado da parede, alguém bateu uma caneca no balcão e pediu outra bebida.

— Tem uma mulher perto das oficinas de encadernação — disse ele. — Irena. Avalia papel velho, manuscrito, essas coisas. Gente que não quer anunciar o que vende passa por lá. Pode conhecer um nome.

— Onde?

Ele explicou. Não pediu para eu sentar, não ofereceu água, não perguntou pelos meninos. Quando me afastei do muro, acrescentou:

— Quando a perna fechar, ainda há serviço.

Assenti.

Precisaria haver.


Encontrei a oficina com a porta fechada. Uma mulher da casa ao lado disse que Irena só voltaria no fim da semana.

Esperei um pouco mesmo assim.

Depois comprei uma faixa limpa e voltei para a fazenda.

A chave enganchou ao sair do bolso. Puxei com força demais e rasguei o forro. Dentro da casa, o ar estava parado, mas a mesa permanecia em pé. O banco consertado também.

Passei pela cozinha e parei diante da prateleira.

Tinha colocado o pote de sal à esquerda.

Orfina guardava à direita, perto de onde abria a massa. Eu trocava sem pensar; ela encontrava, erguia uma sobrancelha e devolvia ao lugar.

Mudei o pote.

Preparei alguma coisa com os ovos. Comi sentado no banco, tomando cuidado para não forçar o encaixe novo. Depois lavei o prato e sequei a mesa.

Quando terminei, ainda havia muitas horas até a manhã.

Peguei o martelo.

A janela dos meninos precisava fechar direito.

Voltar ao sumário

Capítulo 7

O Que Eu Pedia

Irena leu o nome que eu tinha escrito e virou a folha.

— Há mais dois — falei.

Ela tornou a olhar para mim.

Estávamos numa oficina estreita, com tábuas apoiadas sobre cavaletes e livros prensados entre peças de madeira. Uma janela alta iluminava a mesa. Irena tinha tinta na lateral do dedo e um pequeno corte junto à unha, coberto por uma tira de pano.

Escrevi Hati. Depois Skoll.

— Meus filhos.

Ela pousou a pena.

— Entendo.

Eu esperei a frase seguinte. Que sentia muito. Que o tempo ajudava. Que era preciso aceitar alguma coisa.

— Há quanto tempo?

Contei os dias.

Ela me fez outras perguntas, devagar. Respondi ao que consegui. Quando minha mão começou a apertar a beirada da mesa, Irena afastou a folha.

— Não sei realizar o que procura. Avalio textos. Restauro alguns. Posso indicar quem sabe mais do que eu.

— Quanto custa?

— A indicação? Nada.

— Trazer os três.

Ela respirou antes de responder.

— Você precisa conversar com alguém que faça esse tipo de magia. Não seria honesto dar um valor sem saber o que seria necessário.

Tirou uma folha de uma pilha, escreveu um endereço e me entregou.

Saí com aquilo dobrado na palma. Era a primeira coisa desde o enterro que parecia uma instrução.


O homem que me recebeu no endereço não tentou me vender nada.

Por algum tempo, achei que isso fosse uma boa notícia.

Chamava-se Deren. Cuidava de uma pequena casa de assistência, com camas atrás de uma cortina e uma mesa junto à entrada. Enquanto conversávamos, uma ajudante trocava a água de uma bacia. Havia um menino dormindo com o braço enfaixado, a mãe sentada perto dos pés.

Escolhi uma cadeira de onde não precisava olhar para eles.

Deren leu a indicação de Irena, ouviu minha história incompleta e explicou o que sabia.

Magias diferentes. Condições diferentes. Materiais consumidos. Pessoas capazes de executá-las que não estavam ali e não poderiam simplesmente ser chamadas da sala ao lado.

Eu me prendi à palavra capazes.

— Então existe.

— Existe — respondeu. — Mas eu não posso prometer um resultado para sua família. Nem tenho o poder necessário.

— Quanto?

Ele me mostrou uma anotação sobre pedras preciosas. Não um preço para os três. Uma referência de material exigido por um dos meios que conhecia.

Li duas vezes.

Na terceira, perguntei se o valor era pelo trabalho completo.

— Pelo material — disse Deren. — Para uma pessoa, nesse caso.

Coloquei meu dinheiro sobre a mesa.

O das ferramentas. O que tinha restado dos últimos serviços. Tudo que eu não precisava para comer no caminho de volta.

Não fiz aquilo para comovê-lo. Precisava comparar as duas coisas fora da minha cabeça.

Ele não contou.

— Guarde.

— Posso trabalhar.

— Eu acredito.

— Posso pagar em partes.

Deren apoiou os antebraços na mesa.

— Astel, eu não tenho como adiantar esses materiais. Nem como executar o rito. Posso procurar informações sobre alguém que tenha. Posso escrever, perguntar. É o que posso oferecer.

Fiquei olhando para as moedas até os desenhos perderem nitidez.

Não bastaria uma colheita boa. Não bastaria vender bem por uma estação. Eu conhecia o preço de uma carroça, de terra, de anos de trabalho. Tentava encaixar aquele número em alguma coisa da minha vida e não encontrava lugar.

Atrás da cortina, o menino chamou pela mãe.

Ela respondeu imediatamente.

Comecei a recolher o dinheiro.

— Sua perna — disse Deren. — Está sangrando na barra.

Olhei para baixo.

— Não faz parte do que vim pedir.

— Eu sei. Essa parte eu consigo ajudar.

Deixei que me levasse até uma cadeira perto da bacia.


Enquanto limpava a ferida, Deren perguntou se havia alguém comigo.

— Não.

— Alguém que possa ficar alguns dias?

— Não.

Ele não repetiu.

Quando terminou, a dor tinha diminuído. A ferida ainda estava ali, coberta por um curativo melhor do que o meu. Olhei para as mãos dele, esperando sentir gratidão inteira.

Senti alguma.

O resto era uma raiva feia por aquilo ser possível e todo o restante continuar onde estava.

— Há algum lugar da Rainha por aqui? — perguntei.

— Da Raven Queen?

Assenti.

Ele me deu o caminho de uma pequena capela, afastada das ruas de comércio. Pediu que voltasse se a perna esquentasse, inchasse ou voltasse a abrir.

Agradeci.

Consegui fazer isso.


Meu pai levava comida embrulhada nas peregrinações.

Essa foi a lembrança que tive ao ver a entrada da capela. Nada grandioso. O pacote de pão, o nó apertado, minha mãe verificando se todos tinham levado água.

Em Shadowfell, eu era pequeno o bastante para me cansar antes de chegar. Depois da mudança para Chathold, continuamos fazendo alguns percursos, visitando lugares em que outras pessoas se reuniam para honrar a Rainha. Meu pai reclamava das estradas. Minha mãe segurava minha mão nas partes difíceis.

Os dois se calavam quando chegávamos.

Eu tinha aprendido a baixar a cabeça antes de entender por quê.

Entrei.

A capela era menor do que eu esperava. Havia bancos estreitos, um lugar para oferendas e marcas de cera antiga. Uma mulher recolhia pavios apagados. Cumprimentou-me sem perguntar o motivo da visita e voltou ao trabalho.

Escolhi um banco na frente.

Tentei a oração da minha mãe.

Lembrei o início. Esqueci uma parte. Voltei ao início como se a ordem das palavras pudesse fazer diferença, como se eu tivesse chegado à porta certa, mas ainda estivesse batendo do jeito errado.

Depois disse os nomes.

Orfina. Skoll. Hati.

Expliquei que eu tinha saído para trabalhar. Que voltara. Que estavam enterrados atrás da casa.

Não sabia por que estava explicando. A Rainha não precisava de endereços dados por um homem sentado num banco.

Continuei mesmo assim.

Pedi que me mostrasse como trazê-los de volta.

Eu faria a viagem. Procuraria o que fosse necessário. Trabalharia. Se houvesse um lugar a que eu precisasse ir, bastava me dizer.

Esperei.

A mulher passou atrás de mim com um balde. Do lado de fora, rodas de uma carroça rasparam numa pedra. Minha perna começou a doer de ficar dobrada.

Mudei de posição e esperei mais.


Voltei à capela no dia seguinte.

E no outro.

Em casa, continuei os reparos. Em Prymp, passei novamente pela casa de assistência. Deren ainda não tinha resposta às perguntas que enviara. Mostrou-me a cópia de uma carta, embora eu não tivesse pedido prova.

Na capela, tentei lembrar as peregrinações com mais cuidado. Meu pai lavando as mãos. Minha mãe ajeitando minha roupa. Uma frase que talvez devesse vir antes da outra.

Comprei uma vela.

Eu sabia quanto aquele dinheiro diminuía o que tinha guardado. Acendi assim mesmo e fiquei até o pavio afundar.

Naquela tarde, pedi menos.

Queria saber se eles estavam juntos.

Só isso. Se os meninos tinham encontrado a mãe. Se Hati estava assustado. Se Skoll precisava fingir coragem para que o irmão não percebesse.

Olhei para o espaço vazio diante do banco, esperando uma sensação, uma palavra, qualquer coisa que eu não tivesse produzido sozinho.

Meu estômago fez barulho.

Não comia desde a manhã anterior.

Tive vergonha de estar com fome ali.

Depois tive raiva da vergonha.


Na última vez, cheguei perto do fechamento.

A mulher dos pavios me reconheceu e deixou uma porta lateral destrancada. Disse que eu podia sair por ela quando terminasse.

Sentei no mesmo banco.

Já não tentei a oração inteira.

— Minha mãe ainda reza para você.

A frase soou como uma acusação. Eu não tinha planejado que soasse assim.

Passei as mãos pelo rosto.

— Eu não estou pedindo que explique o mundo.

Minha voz estava baixa. Isso me obrigava a ouvir cada palavra.

— Só me diga onde eles estão.

A vela mais próxima estalou. Olhei depressa demais.

Nada.

Fiquei esperando até começar a sentir frio.

Havia pessoas que encontravam consolo ao imaginar os mortos recebidos, amparados, livres da dor. Eu tinha vindo buscar isso também. Uma certeza pequena para levar para casa enquanto procurava uma maneira de cumprir a promessa.

Agora me ouvia inventando as respostas que desejava receber e tentando acreditar que vinham de outro lugar.

Levantei.

— Eram crianças.

A palavra ficou na capela depois que terminei de dizê-la.

Esperei uma última vez, de pé, com a mão no encosto do banco.

Então saí pela porta lateral.

Em casa, parei junto ao batente. Minha mão subiu por hábito, os dedos quase tocaram a madeira.

Eu os recolhi.

Havia deixado a janela da cozinha aberta. Fui fechá-la, guardei a comida e acendi a lamparina com uma pederneira.

Na mesa, perto das moedas, estava o endereço de Irena.

Alisei a folha.

Voltaria à oficina pela manhã.

Voltar ao sumário

Capítulo 8

Por Alguns Dias

— Este não ensina a ressuscitar ninguém — disse Irena.

O livro estava aberto entre nós. Havia um desenho de uma mão, marcas indicando a posição dos dedos e uma explicação que eu já tinha lido duas vezes sem entender por que precisava ocupar tanto espaço.

— Ensina a fazer magia?

— Ensina alguns princípios. É diferente.

— Preciso começar em algum lugar.

Ela passou o polegar pela borda da capa.

— Pode levar emprestado.

— Quanto?

— Emprestado, Astel.

Eu ainda não tinha me acostumado à maneira como dizia meu nome. Sem urgência, sem cuidado exagerado. Como se fosse o nome de alguém que podia devolver um livro na semana seguinte.

Assenti.

Ela me fez embrulhá-lo antes de sair.

— Umidade estraga mais páginas do que maldição.

— Vou manter seco.

— E longe do fogão.

Olhei para o desenho da mão.

— Parece que isso vai ser fácil.

Ela quase sorriu.


Tentei na mesa da cozinha.

Primeiro com a mão esquerda. Depois com a direita, porque a figura podia ter sido copiada ao contrário. A explicação dizia para sentir uma coisa que não parecia estar ali.

Eu conseguia sentir a articulação do dedo ficando dolorida.

Li de novo.

A palavra usada no terceiro parágrafo aparecia também no primeiro, com uma definição que remetia a outra página. Voltei. Marquei o trecho com uma tira de pano e comecei mais uma vez.

Naquela noite, nada aconteceu.

Na seguinte também não.

Eu conhecia o começo difícil de um trabalho. Tinha aprendido a afiar ferramentas sem arruinar o fio, a perceber chuva pelo cheiro antes de olhar o céu, a endireitar madeira que parecia perdida. Aceitava que minhas mãos fossem desajeitadas com uma coisa nova.

O problema era não encontrar uma diferença entre a primeira tentativa e a centésima.

Pus um pavio limpo num prato. Não precisava de muito. Uma chama pequena bastaria para saber que estava indo a algum lugar.

Quando a lamparina acabou, procurei a pederneira no escuro e acendi outro pavio.

O do prato continuou frio.


Irena encontrou alguém disposto a me observar.

O homem chamava-se Oren e trabalhava com inscrições simples para comerciantes. Pagavam para que uma placa permanecesse legível sob chuva ou para que uma marca aparecesse no material certo. Sua mesa tinha queimaduras, manchas e uma perna reforçada com arame.

Achei aquele lugar mais confiável do que teria achado uma sala impecável.

Ele me ouviu recitar a instrução.

Corrigiu minha pronúncia. Mudou a posição do meu pulso. Pediu que respirasse mais devagar.

Tentamos de novo.

— Você está apertando os dentes — disse.

— Estou tentando não apertar sua mesa.

Oren retirou de perto de mim um recipiente de tinta.

Pareceu uma precaução razoável.

Passei algumas tardes ali. Paguei uma parte em moedas e outra consertando o suporte em que ele guardava pergaminhos. A cada nova explicação, eu conseguia repetir um pouco melhor o que devia acontecer.

Nada acontecia.

Um aprendiz entrou numa dessas tardes para buscar uma encomenda. Enquanto esperava, aqueceu o chá esquecido numa caneca. Um gesto curto. A conversa nem parou.

Fiquei olhando para o vapor.

Oren esperou que o rapaz saísse.

— Entender o exercício e conseguir executá-lo são coisas diferentes.

— Percebi.

— Você pode precisar de mais tempo.

— Quanto?

Ele não respondeu depressa.

Isso já era uma resposta.

— Eu não sei — disse por fim. — E não vou continuar recebendo como se soubesse.

Pus as mãos sob a mesa. As pontas dos dedos estavam marcadas de tanto pressioná-las umas contra as outras.

— Então terminou?

— O que eu consigo ensinar desse jeito, por enquanto. Pode voltar para tirar dúvidas sobre o livro.

Quis odiá-lo. Teria sido mais simples se tivesse rido de mim ou cobrado por outro mês.

Ele me entregou a última moeda que eu tinha deixado adiantada.

Peguei.


O prazo dos impostos chegou enquanto eu aprendia a fracassar sentado.

Vendi a carroça, depois o cavalo, para compradores diferentes. As galinhas foram antes. Conferi o preço em vários lugares e passei uma manhã inteira discutindo a avaliação da madeira, como se aquela ainda fosse minha principal preocupação.

Com o que consegui e o pagamento já registrado, quitei a cobrança que ameaçava tomar a casa.

O escrivão encontrou meu nome no livro.

— Houve alteração na composição da residência? — perguntou, lendo algum campo abaixo da linha.

Eu o encarei.

Ele ergueu os olhos.

— Número de moradores.

Minha mão já estava fechada quando percebi.

— Receba o dinheiro.

Ele recebeu.

Guardei o comprovante sem ler. Não tinha resolvido nada que importasse, mas a porta continuaria sendo minha para abrir quando chegasse a hora.

Voltei a pé.

O caminho levou mais tempo. Ao passar pela última curva, pensei que devia ter comprado alguma coisa para o jantar.

Havia comida suficiente em casa.

Demorei a lembrar por quê.


As semanas começaram a se parecer.

Saía para Prymp, procurava notícias com Deren, devolvia um livro, levava outro. Fiz pequenos serviços quando a perna permitiu. Oren me mostrou um erro numa cópia que eu tinha comprado barato: dois símbolos trocados, uma linha inteira omitida. Aprendi a conferir antes de tentar.

Aquilo não produziu magia, mas me poupou repetir uma instrução quebrada.

Em casa, já não havia muito para consertar.

A janela fechava. O banco estava firme. Eu tinha lavado, guardado, remendado tudo que sabia remendar. Até as roupas, que me pareceram tão urgentes, continuavam nos mesmos lugares, sem ninguém precisar de uma peça limpa.

Passei a trabalhar no galpão até tarde.

Depois comecei a voltar de Prymp mais devagar.

Uma noite, fiquei sentado do lado de fora da porta por tanto tempo que a umidade começou a subir pelas minhas botas. A chave estava na minha mão. Bastava levantar.

Lá dentro, eu sabia exatamente o que encontraria.

Não consegui entrar até quase amanhecer.


Irena me encontrou parado diante de uma folha em branco.

Tinha oferecido papel porque um transportador conhecido partiria para Chathold e podia levar uma mensagem. Eu havia pensado em meus pais antes de conseguir impedir.

Minha mãe abriria a carta perto da mesa.

Meu pai perguntaria o que eu queria agora, com aquele tom que usava até quando estava contente.

Eu precisava escrever a primeira frase.

Comecei com o nome dela.

Depois tentei imaginar a seguinte. Como diria que Orfina morreu? Que os meninos morreram? Que eu não estava em casa? Cada explicação parecia ensaiada para diminuir a parte que me cabia.

Palmer teria me interrompido. Raphael também. Eu os conhecia o bastante para saber que nenhum ficaria ouvindo enquanto eu me chamava do que vinha me chamando todas as noites.

Não queria vê-los procurando palavras para me convencer de que eu ainda merecia sentar à mesa com alguém.

Virei a folha.

— Não vai mandar? — perguntou Irena.

— Não desta vez.

Ela olhou a única palavra que tinha ficado do outro lado e deixou o papel comigo.


Saí da fazenda numa manhã sem vento.

Havia conseguido um serviço que tomaria alguns dias e um lugar barato para ficar em Prymp depois. Disse a mim mesmo que precisava reduzir o caminho entre o trabalho e as pessoas que podiam me ajudar.

Era verdade.

Também era verdade que, na noite anterior, eu tinha comido do lado de fora outra vez.

Guardei as poucas provisões que não estragariam. Cobri a mesa com um pano. Verifiquei a janela dos meninos e coloquei no galpão a enxada que tinha conservado. O martelo ficou numa prateleira, onde eu saberia encontrá-lo.

Levei roupa, faca, arco, o livro emprestado e um caderno de folhas desiguais em que vinha copiando instruções.

Fui até os fundos antes de fechar a casa.

Ajoelhei com dificuldade. A perna melhorava, mas ainda reclamava quando eu esquecia de ter cuidado.

Tirei uma erva pequena que começava a crescer perto da primeira cova. Esfarelei a terra presa na raiz entre os dedos.

— Vou precisar ficar fora.

Esperei, olhando para o lugar em que o chão tinha cedido depois do enterro.

— Alguns dias.

Eu não sabia se estava mentindo.

Contei que a janela tinha sido consertada. Que o banco aguentava bem. Quase acrescentei que Orfina não precisava se preocupar com a cozinha.

Não consegui terminar essa parte.

Na porta da frente, girei a chave. Puxei para conferir e depois passei pelo portão com a bolsa no ombro.

O metal ficou solto no bolso rasgado, batendo contra a minha perna.

Parei na estrada e mudei a chave de lugar.

Não podia perder aquilo.

Voltar ao sumário

Capítulo 9

Antes de Aceitar

Maeron não perguntou onde eu estava morando.

Disse a hora, o lugar, quanto pagaria. Eu precisava levar uma caixa de um armazém a outro depois que uma patrulha passasse. Não devia abrir, molhar ou abandonar a carga.

— E se aparecer outra patrulha?

— Não abandone a carga.

Olhei para ele.

— Vai custar mais.

Ele suspirou como se eu tivesse inventado o risco para estragar a tarde.

Combinamos outro valor.

Fiz a entrega. Recebi. Comprei comida, paguei o lugar em que estava ficando e guardei o restante. Na noite seguinte, sentei diante de um livro até as letras se confundirem.

Era possível passar um dia inteiro sem pronunciar os nomes deles.

Descobri isso com horror.

Depois descobri que podia passar dois.


Os serviços mudaram aos poucos.

Transportar uma caixa. Vigiar uma porta. Acompanhar alguém que queria cobrar uma dívida sem correr o risco de ouvir uma resposta desagradável. Entrar num depósito, procurar um pacote marcado, sair antes de ser visto.

Eu não tinha aprendido a ficar invisível. Batia o ombro em lugares estreitos, fazia tábuas reclamarem, precisava pensar em onde punha os pés. Aprendi a observar um lugar antes de entrar e a não confiar no homem que dizia que a saída seria simples.

Sera me derrubou duas vezes num pátio para mostrar o que acontecia quando eu avançava com o peso todo na frente.

Na terceira, consegui permanecer em pé.

Ela bateu na minha guarda e abriu um corte perto do pulso.

— Melhor — disse.

— Você tem um modo ruim de demonstrar satisfação.

— Você tem um modo caro de aprender.

Limpou a lâmina na calça e me fez tentar outra vez.

Eu continuava sentindo medo antes dos trabalhos. Ele começava na barriga, subia até a mandíbula e ficava ali enquanto eu conferia as correias. Com o tempo, passei a conseguir fazer outras coisas mesmo com aquilo dentro de mim.

Foi o que mudou primeiro.


O serviço dos sacos veio perto do fim daquele primeiro ano.

Um intermediário queria recuperar mercadoria desviada. Mostrou uma ordem com selo, falou de perdas e garantiu que ninguém morava no galpão. Haveria um homem comigo, uma carroça na esquina e pouco tempo antes da troca da guarda.

Perguntei que mercadoria.

— Grão.

Perguntei de quem.

Ele apontou o selo.

Eu conhecia o brasão. Tinha visto a mesma família anunciada na entrada de uma reserva de caça.

— Está me contratando para roubar o que já é seu?

— Para devolver ao proprietário.

Deu o adiantamento.

No galpão, havia uma tranca simples, sacos empilhados e uma lamparina acesa num cômodo ao fundo.

O homem que viera comigo começou a carregar.

Fui verificar a luz.

Uma mulher se levantou de um catre. Atrás dela, duas crianças se mexeram sob a mesma manta. Havia tigelas numa caixa e roupa secando numa corda baixa.

Ela olhou para a faca no meu cinto.

— Já entregamos a parte dele.

Fiquei parado na entrada.

— Quem mora aqui?

— Nós.

Do lado de fora, meu companheiro arrastou um saco pelo chão.

A mulher deu um passo, mas parou quando eu me movi.

— É a semente — disse. — Ele sabe que é a semente.

Olhei para as tigelas. Uma estava trincada e amarrada por fora com arame. Não havia muito ali que alguém pudesse vender antes de começar a vender o que precisava para viver.

— Deixe o saco — falei, voltando ao galpão.

O homem me encarou.

— Como?

— Deixe.

Ele apoiou a carga.

— A gente recebeu.

Tirei do bolso a minha parte do adiantamento.

— Devolva.

— E a minha?

— Não estou pedindo a sua opinião sobre o serviço.

Ele levou a mão à cintura.

Dei um passo antes que terminasse o movimento. Agarrei seu pulso, empurrei contra um pilar e senti a madeira bater nas minhas costas quando ele reagiu. Por um instante, fiquei sem ar. Acertei seu rosto com a testa.

A mão soltou a faca.

Segurei o braço dele até parar de tentar me acertar.

No cômodo, uma criança começou a chorar.

Aquilo me fez afrouxar os dedos.

— Vá — disse.

O homem cuspiu no chão. Levou o dinheiro e a faca. Eu esperei o ruído da carroça se afastar antes de recuar para a porta.

A mulher continuava entre mim e o catre.

Eu queria explicar que não sabia.

Olhei para o saco que havíamos arrastado e não disse nada.

Coloquei a tranca no lugar pelo lado de dentro e saí pela outra porta, como ela pediu.


Maeron me esperava no dia seguinte.

— Você custou um cliente.

— Ele mentiu.

— Sobre a carga?

— Sobre quem estava lá. Sobre o que ia levar.

— Você viu grão. Trouxe uma explicação. Ele queria grão.

Apoiei as mãos na mesa.

— Não me mande tirar comida de crianças.

— Eu não mandei você a lugar nenhum. Dei um contato.

Ele podia separar as coisas daquele jeito. Eu tinha ouvido homens melhores fazerem o mesmo atrás de mesas mais caras.

— Então dê contatos melhores.

Maeron se recostou.

— Vai ficar algumas semanas sem serviço por aqui.

Fiquei.

Atrasei o pagamento do quarto. Vendi uma arma que tinha comprado de segunda mão e perdi a chance de adquirir um manuscrito que Irena separara para eu examinar. Quando voltei à oficina, já tinha sido vendido.

Naquela noite, calculei quanto a recusa me custara.

Calculei até o último cobre.

Não consegui desejar ter feito diferente.


O homem do espelho chegou por outro contato.

Chamava-se Varo. Recebeu-me numa sala alugada com cadeiras boas demais para o restante do prédio. Não começou falando de preço. Perguntou quem eu procurava, há quanto tempo, o que tinha tentado.

Eu já tinha aprendido que perguntas podiam ser uma forma de ajuda.

Ainda não tinha aprendido o bastante sobre as outras formas.

Ele disse que não podia prometer um retorno imediato, mas que sabia estabelecer contato. Usou termos que eu conhecia dos livros. Corrigiu uma palavra minha sem hesitar. Mostrou uma página antiga, com anotações na margem.

— Primeiro precisamos saber se podem responder.

Olhei para o espelho coberto.

— Os três?

— Começamos por quem tiver o vínculo mais forte.

Não soube escolher.

Ele percebeu e disse que não precisava decidir naquele momento.

Voltei dois dias depois com o pagamento.

Tinha vendido coisas que preferia conservar e aceitado um serviço para o qual não estava recuperado. Meu ombro doía ao erguer o braço. Varo pediu que eu sentasse e descrevesse Orfina.

Contei dos cabelos. Da voz. Do jeito como ela arrumava a gola dos meninos enquanto falava de outra coisa.

Ele ouviu tudo.

Depois escureceu a sala.

Houve fumaça, palavras baixas, um reflexo que não consegui fixar. Inclinei o corpo para a frente. Queria enxergar tão intensamente que meus olhos começaram a arder.

Uma voz disse meu nome.

Quase me levantei.

Não soava como ela. Pensei que a distância podia alterar uma voz. Pensei isso antes de qualquer outra possibilidade.

Varo tocou meu braço.

— Não interrompa.

A voz disse que estava esperando. Que sentia minha falta.

Eu tinha ouvido histórias de pessoas enganadas. Tinha achado que reconheceria um truque quando o visse.

Naquela cadeira, procurei uma maneira de acreditar.

— Como ela me chamava quando estava irritada? — perguntei.

Varo apertou meu braço.

— Perguntas assim dificultam a ligação.

Retirei a mão dele.

Fiz outra pergunta. Pequena. Doméstica. Uma coisa sem importância para qualquer pessoa fora da nossa casa.

O espelho devolveu palavras sobre saudade.

Levantei e puxei o pano que cobria a mesa ao lado.

Varo tentou me impedir.

Havia um tubo fino atrás da madeira e uma abertura na parede, escondida pela tapeçaria. Não entendi o mecanismo inteiro. Entendi o suficiente quando ouvi alguém se levantar depressa do outro lado.

Segurei Varo pela roupa e o empurrei contra a mesa.

O espelho caiu.

— Meu dinheiro.

Ele começou a explicar.

Apertei mais.

Por alguns segundos, percebi como seria fácil continuar apertando. Não precisava pensar em grãos, contratos ou guardas. Aquele homem tinha me feito esperar pela voz da minha mulher.

Seus dedos arranharam meu pulso.

Soltei o bastante para que respirasse.

— O dinheiro.

Recuperei parte. O resto, ele jurou que já tinha gasto. Revirei as gavetas, peguei o que era meu até onde consegui contar e fui embora antes de decidir o que fazer com a diferença.

Na rua, sentei no meio-fio.

Minhas mãos tremiam.

Eu estava mais envergonhado do que furioso. A raiva cresceria depois, quando fosse mais fácil olhar para o homem que me enganara do que para o instante em que quis ajudá-lo.


Irena não disse que eu devia ter perguntado antes.

Mostrou, numa cópia que tinha na oficina, o trecho de onde Varo tirara as palavras difíceis. Era uma discussão sobre práticas funerárias. Ele omitira o parágrafo que questionava os relatos.

Fiquei olhando para a página.

— Pode me emprestar?

— Posso.

Esperei que ela terminasse de embrulhar o livro. Quando ofereceu chá, observei a água, as folhas, a caneca que escolheu.

Ela percebeu.

Não comentou.

Bebi depois do primeiro gole dela.

O chá era ruim. Quente demais e amargo.

Devolvi a caneca vazia, agradeci e levei o livro.

Voltar ao sumário

Capítulo 10

O Quarto dos Livros

Encontrei o quarto procurando uma saída.

O trabalho tinha terminado mal. Um comprador aparecera acompanhado de mais homens do que combinara, e nenhum parecia interessado em pagar. Saí pelos fundos com o pacote ainda comigo, atravessei dois pátios e entrei numa casa de janelas fechadas para despistar quem viesse atrás.

A porta cedeu no segundo empurrão.

Lá dentro, havia telhas caídas, um armário sem portas e o cheiro antigo de lugar que tinha deixado de ser cuidado. Esperei junto à parede até as vozes passarem.

Foi então que percebi a corrente de ar atrás do armário.

O cômodo escondido era pequeno. Talvez tivesse sido uma despensa antes de alguém fechar a passagem principal. A parede externa continuava inteira, e o telhado daquele lado não cedia. Havia uma abertura alta, estreita demais para passar um homem, por onde entrava um pouco de claridade.

Voltei duas noites depois, sem pacote nem perseguidores.

Observei a casa por um bom tempo antes de entrar. Poeira intacta. Nenhuma comida, roupa recente ou sinal de alguém usando os outros cômodos. Ainda assim, esperei mais alguns dias antes de levar minhas coisas.

O aluguel do quarto anterior consumia dinheiro que eu queria gastar em livros.

Consertei a parte da passagem que raspava no chão e deixei o armário parecer tão inútil quanto antes. Levei uma manta, uma bacia, as roupas e os volumes que começavam a pesar mais do que todo o restante.

Na primeira noite, sentei no chão.

Ninguém sabia que eu estava ali.

Achei bom.


A escuridão ajudava.

Conseguia me mover sem luz e distinguir o bastante das páginas para estudar junto à abertura quando havia algum luar. Para letras apagadas ou tintas difíceis de separar, usava uma vela protegida, com cuidado para que não aparecesse pela fresta.

Não precisava dormir como os homens que me contratavam. Ainda precisava descansar. Aprendi isso de novo quando tentei trocar repouso por leitura e comecei a perder o ponto da página, repetindo a mesma linha sem perceber.

Estabeleci um lugar para a bacia, um para a comida, outro para os livros que estavam úmidos. Passei um fio fino perto da entrada, baixo o bastante para notar se alguém atravessasse. Nem sempre era gente que deixava marcas no pó; precisei aprender a diferença antes de passar noites inteiras com a faca na mão.

Fiz uma prateleira com madeira aproveitada da própria casa.

Depois outra.

Os livros não combinavam entre si. Alguns eram grandes demais, outros tinham capas novas em folhas antigas. Havia cadernos de viajantes, tratados incompletos, cópias que os vendedores juravam ter saído de coleções proibidas.

Passei a pedir uma página ao acaso.

Quem só tinha decorado o título não gostava disso.


No segundo ano, comprei um livro que já tinha.

A capa era diferente. O nome também. Reconheci o texto na terceira folha, pelo mesmo erro na descrição de um componente.

Voltei ao vendedor antes que desmontasse a banca.

— É outra versão — disse ele.

Abri os dois no mesmo lugar.

— Com o mesmo erro?

Ele olhou para as páginas, depois para minha mão pousada sobre a banca.

Devolveu metade do dinheiro. Consegui o restante ficando ali até que os outros clientes começassem a prestar atenção.

Não era conhecimento sobre vencer a morte.

Ainda assim, era conhecimento que eu não tinha antes.

Irena me ajudou a comparar referências. Oren mostrou diferenças entre uma descrição de fenômeno e uma instrução de conjuração. Deren recebeu respostas de dois lugares; nenhuma trouxe um caminho ao alcance do que eu conseguia reunir.

Eu guardava dinheiro. Via o pequeno montante crescer, depois diminuir com viagens, comida, um ferimento, uma pista que só podia verificar longe dali. Perguntei por trabalhos que pagassem o bastante de uma vez. Riram, ou fizeram propostas que dependiam de homens, equipamentos e capacidades que eu não tinha.

A diferença continuava enorme.

Os livros ofereciam outras possibilidades. Eu sabia que a maioria não chegaria a nada. Precisava descobrir quais antes de desistir deles.

Houve uma cópia que passei meses procurando porque três autores a citavam. Quando finalmente consegui lê-la, descobri que descrevia a preservação de um corpo, não a devolução de uma vida.

Fechei o volume e fiquei com as mãos sobre a capa.

Naquela noite, não procurei o seguinte.

Na outra, procurei.


Os homens para quem eu trabalhava passaram a perguntar menos se eu sabia fazer.

Perguntavam quando podia começar.

Meu corpo mudou antes que eu reparasse. Um casaco ficou estreito nos ombros. Uma correia precisou de outro furo. Eu conseguia carregar mais peso, sustentar a guarda por mais tempo, perceber quando estava perto de me cansar o suficiente para cometer um erro.

Ainda cometia.

Numa casa de campo, no terceiro ano, encontrei um homem armado onde o contratante garantira que haveria apenas uma escrivaninha.

Ele veio antes que eu pudesse recuar.

O primeiro golpe atingiu o batente junto à minha cabeça. O segundo abriu minha manga. Entrei no espaço entre a lâmina e o corpo dele porque ficar longe significava deixar que atacasse de novo.

Batemos contra a escrivaninha.

Eu podia sentir seu hálito. Ele tentava alcançar minha garganta com a mão livre. Meu pé escorregou num papel, encontrei apoio, puxei a faca.

Quando consegui me afastar, o homem caiu ao lado da cadeira.

Esperei outro movimento.

Não veio.

Fiquei ouvindo a casa. Nenhuma corrida, nenhuma voz. Só minha respiração e o ruído de alguma coisa pequena rolando no chão.

Um sinete tinha caído da mesa.

Reconheci o brasão da família contratante, não do dono da casa. O homem devia estar ali para garantir que um assaltante encontrado morto encerrasse a parte inconveniente do acordo.

Foi o que concluí. Não fiquei para pedir uma explicação.

Levei os documentos que tinha ido buscar e saí por onde entrara.

No quarto, lavei o sangue da manga. A água ficou escura. Pensei no rosto do homem, no peso dele contra mim, em como quase não conseguira abrir espaço para respirar.

Depois pensei no que precisava cobrar a mais por aquele serviço.

A facilidade com que um pensamento veio depois do outro me fez parar.

Deixei a manga dentro da bacia até amanhecer.


Era cada vez mais fácil odiar os nobres.

Vi selos deles em ordens de cobrança, ouvi nomes em salas onde homens decidiam quanto valia silenciar outro homem. Trabalhei para uns contra outros. O dinheiro passava por intermediários, mas os brasões reapareciam quando alguém esquecia de esconder um envelope.

Eu lembrava da pena encantada registrando minha dívida.

Lembrava do caminho de volta para casa.

Nunca encontrei uma prova que ligasse aquelas pessoas ao que acontecera com Orfina e os meninos. Procurei rumores, fiz perguntas discretas, escutei versões que se contradiziam. Nenhuma me levou a alguém que eu pudesse apontar.

Mesmo assim, dentro de mim, a culpa deles parecia estabelecida.

Tinham apertado até que eu saísse. Tinham feito da nossa fome um número numa página. Quando eu precisava de um rosto para tudo aquilo, encontrava muitos disponíveis.

O meu continuava aparecendo entre eles.


Voltei à fazenda no terceiro ano.

Tinha mantido o nome nos registros e as cobranças em dia quando conseguia acertá-las em Prymp. Gastar com uma casa vazia parecia absurdo nas contas. Eu cortava outra despesa.

A chave estava presa num cordão por dentro da roupa.

Precisei segurar a fechadura com uma mão e forçar devagar com a outra. A madeira tinha inchado. Por um instante, temi quebrar o metal lá dentro.

Então girou.

O pano sobre a mesa estava cinzento. Havia pó nas prateleiras e uma marca de infiltração junto à janela. O ar cheirava a tecido guardado.

Abri as janelas.

Puxei o pano para lavar e parei ao ver o banco.

Meu reparo tinha aguentado.

Sentei por alguns instantes. Quis lembrar a última coisa engraçada que Hati dissera ali. Lembrei de várias frases, mas não consegui decidir qual viera por último.

Procurei a voz dele na memória.

Ela veio misturada à minha maneira de contar as histórias.

Levantei depressa.

No quarto dos meninos, abri a prateleira. As roupas permaneciam dobradas, pequenas, do tamanho que tinham quando guardei. Passei a mão por uma manga.

Se estivessem ali, já não serviria.

Fiquei olhando para o tecido até perceber que o segurava contra o peito.

Naquele dia, limpei a casa, consertei a infiltração do jeito que pude e cuidei do terreno nos fundos. Trabalhei até as mãos ficarem doloridas. Ao terminar, não havia uma tarefa urgente que justificasse permanecer do lado de fora.

Entrei.

Preparei comida. Comi à mesa.

Passei a noite ali, descansando pouco.

De manhã, dobrei o pano seco, cobri os móveis e tranquei tudo outra vez.

Não disse quantos dias levaria.


No quarto ano, Irena me pediu ajuda com uma caixa.

Carreguei até os fundos da oficina. Na volta, ela colocou pão e uma caneca sobre a mesa.

— Está pago — disse.

— Era uma caixa.

— Pesada.

Sentei de onde podia ver a porta. Já fazia isso sem escolher.

Ela me contou de uma remessa que chegaria no mês seguinte. Um dos livros talvez tivesse referências úteis; outro, segundo a descrição, parecia uma fraude com encadernação cara.

Perguntei como distinguira.

Conversamos até o chá esfriar.

Quando fui embora, percebi que não tinha contado o número de vezes que ela olhara para a rua.

Na visita seguinte, contei outra vez.


O quinto ano encontrou as prateleiras cheias.

Havia pilhas sob a mesa, volumes embrulhados contra a umidade, folhas copiadas com uma letra que ficava menor quando eu tentava economizar papel. Ainda tentava alguns exercícios. Fazia intervalos maiores entre eles. A ausência da chama não se tornara menos irritante por ser esperada.

Recebi parte de um pagamento em livros apreendidos de uma coleção particular. Examinei títulos, folhas, costuras. O intermediário queria me entregar o lote inteiro como se o peso fosse uma medida de utilidade.

Recusei até que acrescentasse moedas.

Um dos volumes tinha a lombada refeita e quase nenhuma indicação na capa. As primeiras páginas pareciam incompletas. Coloquei-o entre os que precisavam de exame demorado.

Naquela noite, estava cansado demais para isso.

Guardei o dinheiro, conferi a passagem atrás do armário e sentei com as costas na parede.

A chave caiu de dentro da camisa quando me inclinei.

Recolhi o cordão e passei o polegar pelos dentes gastos do metal.

Depois fechei os olhos para descansar, cercado por tudo que ainda não tinha funcionado.

Voltar ao sumário

Capítulo 11

Uma Resposta

Na primeira noite, achei que fosse cansaço.

Estava copiando uma passagem quando ouvi uma palavra baixa demais para entender. Parei com a pena no ar. A tinta formou uma gota, caiu e cobriu parte do que eu acabara de escrever.

Escutei.

Havia água pingando em outro cômodo. Vento numa abertura do telhado. Um ruído distante da rua.

Esperei até minha mão começar a doer naquela posição.

Depois limpei a pena e fui descansar.

Na segunda noite, aconteceu outra vez.

Dessa vez, ouvi meu nome.


Peguei a faca antes de levantar.

Conferi o fio junto à passagem. Intacto. Abri espaço atrás do armário e atravessei a casa sem acender luz, parando antes de cada porta.

Não encontrei ninguém.

Saí pelos fundos, contornei o prédio, observei as janelas dos vizinhos. Uma ainda tinha luz. Havia alguém lavando uma panela num pátio distante e dois homens discutindo junto à esquina. Nenhum pareceu prestar atenção em mim.

Voltei ao quarto.

— Fale de novo.

Minha voz pareceu alta demais entre as prateleiras.

Nada respondeu.

Passei o restante da noite sentado de frente para a entrada. A faca ficou sobre o joelho. Quando o céu clareou, eu não tinha lido outra linha.

Pensei em Varo.

Examinei a parede atrás da mesa.


A voz voltou na noite seguinte.

Eu tinha comido. Descansado. Passado parte da tarde ao ar livre, andando sem um destino urgente, tentando descobrir se havia começado a levar minha própria esperança para dentro dos ouvidos.

Ouvi o nome de novo ao alcançar um livro na segunda prateleira.

Retirei a mão.

Esperei.

Depois toquei cada lombada, devagar.

Nada.

Peguei a pilha do canto, separei os volumes sobre o chão e fiquei olhando para eles. Havia tantos que precisei afastar a bacia para abrir espaço.

— Qual deles?

Demorou.

Quando a resposta veio, não consegui dizer se tinha atravessado o quarto ou surgido já perto demais da minha cabeça.

— O que está sob sua mão.

Eu estava apoiado sobre um livro de lombada refeita.

Afastei os dedos como se tivesse encontrado uma chapa quente.

Fazia cinco anos que eu procurava alguma coisa capaz de mudar minha vida.

Minha primeira reação foi querer sair do quarto.


Levei o livro para outro cômodo.

Pus sobre uma caixa, longe de paredes inteiras e móveis fechados. Verifiquei a costura, as folhas, o espaço entre a capa e o miolo. Não encontrei nada que soubesse reconhecer como um truque.

Isso não significava muita coisa. Eu conhecia os limites do que sabia.

— Quem está falando?

A voz respondeu quando minha mão voltou a tocar a capa.

— Alguém que pode lhe dar o que falta.

Fechei os dedos na borda da caixa.

— Não sabe o que me falta.

— Poder.

Olhei para a passagem atrás de mim.

— Muita gente tenta vender isso.

— Você comprou bastante papel.

Senti o rosto endurecer.

— E você veio embrulhado nele.

Houve uma pausa. Não soube se a voz tinha se divertido, se estava irritada ou se simplesmente podia esperar mais do que eu.

— O que quer? — perguntei.

— Recuperar uma arma.

Era a primeira resposta que não parecia escolhida para imitar um desejo meu.

Puxei outra caixa e sentei.

Mantive a passagem à vista.


Uma espada.

A voz falou dela como alguém falava de uma coisa que continuava sua, mesmo fora do alcance. Estilhaçada, dividida em milhares de fragmentos, espalhada pelo continente. Eu precisaria procurar as partes, reuni-las, reconstruir o que tinha sido quebrado.

Olhei para o livro.

— Milhares.

— Sim.

— Espalhados onde?

— Você terá de encontrá-los.

— Isso eu entendi.

Minha perna doeu. A cicatriz ainda reclamava quando eu ficava muito tempo sentado em certos dias. Mudei o peso na caixa e esperei que a voz explicasse mais.

Ela ofereceu poder em troca do compromisso. Poder que eu teria enquanto cumprisse a busca. Se recuperasse a lâmina, conservaria o que recebera e poderia empunhar a arma refeita.

Pensei nas distâncias. Em quantos lugares eu já tinha visitado para voltar com uma cópia inútil dentro da bolsa.

— Uma vida inteira procurando seus pedaços.

— Você já está procurando.

Quis fechar o livro.

Não fechei.

— Eu procuro minha família.

— E continuará procurando. Com meios que não tem agora.

Pela primeira vez desde que a voz começara, deixei de olhar para a saída.


Perguntei diretamente.

— Pode trazer os três de volta?

A casa estava tão silenciosa que ouvi o tecido da minha manga quando movi o braço.

— Posso lhe dar o poder de que precisa para ir atrás do seu objetivo.

— Não foi o que perguntei.

— Foi o que ofereci.

Baixei os olhos para as páginas. A letra continuava ali, pequena, incompleta em alguns trechos. Nada no papel explicava por que eu devia acreditar que daquela vez seria diferente.

— Vou conseguir fazer isso com o que você me der?

— Você conseguirá chegar a lugares que hoje não alcança. Sobreviver a perigos que hoje o matariam. Sua busca não precisa terminar neste quarto.

Era uma resposta cuidadosa.

Eu conhecia respostas cuidadosas. Tinha dado algumas a Orfina antes de sair de casa.

Passei a mão pela boca.

— Não está prometendo devolvê-los.

— Estou propondo um pacto.

Eu ouvi a diferença.

Queria poder dizer que ouvir tornou a decisão mais difícil. Tornou a oferta mais clara. A decisão já estava se formando desde a primeira vez em que a palavra poder parecera se referir a algo que eu poderia ter.


Não aceitei naquele instante.

Fechei o volume e voltei ao quarto para buscar água.

O silêncio me acompanhou.

Sentei diante da mesa em que tinha tentado os primeiros exercícios por tantas noites. Um pavio velho ainda estava guardado numa caixa pequena. Eu o mantivera porque podia servir, depois porque esquecia de jogar fora.

Coloquei no prato.

Endireitei os dedos. Respirei. Fiz o gesto que Oren corrigira até se cansar de procurar um erro que pudesse nomear.

Nada.

O pavio permaneceu deitado sobre a cerâmica.

Fiquei olhando por algum tempo, sem tentar outra vez.

Pensei em Deren. Na maneira como tinha dito que não podia prometer. Ele fora honesto e fizera o que conseguia. Irena também. Oren também. A ajuda deles tinha me permitido continuar, aprender, gastar menos com mentiras.

Não tinha sido suficiente.

Na parede, as prateleiras estavam cheias de tentativas que eu sabia explicar melhor do que sabia realizar.

Tirei a chave de dentro da roupa.

O metal estava morno.

Se aceitasse, teria de partir por tempo que não conseguia calcular. Procurar uma arma que não conhecia para uma voz que não mostrava o rosto. Havia perguntas sem resposta suficientes para encher outro livro.

Eu não tinha esquecido Varo.

Também não tinha esquecido a porta de casa, a mesa virada, minha mão procurando uma respiração que não encontrou.

Prendi a chave de novo.

Voltei à caixa onde deixara o volume.


— Não vou ferir crianças para encontrar sua espada — falei.

Minha voz saiu firme. Eu precisava ouvir aquela frase antes de qualquer outra.

— O que procuro são os fragmentos.

— Nem tirar de uma família o que ela precisa para viver.

— Você escolherá seus caminhos.

Observei a capa por alguns instantes.

Não sabia quanto valia uma resposta vinda dali. Ainda assim, tinha dito. Não permitiria que, mais tarde, eu mesmo fingisse que aquela parte nunca passara pela minha cabeça.

— Reunir os fragmentos. Refazer a lâmina — repeti. — Em troca, recebo poder. Quando terminar, mantenho esse poder e posso empunhá-la.

— Sim.

Respirei fundo.

Eu tinha imaginado muitas vezes o que faria se alguém me oferecesse uma chance. Nas primeiras semanas, teria feito perguntas sobre preço, prazo, distância. Depois aprendera que as respostas podiam ser verdadeiras e ainda assim me deixarem de mãos vazias.

Agora havia uma voz esperando minha decisão.

Pensei nos três nomes. Disse cada um por dentro, com cuidado, sem pressa. Não como parte do acordo. Aquilo era meu.

— Eu aceito.


A dor veio nas costas da mão.

Afastei-a do livro, mas a sensação continuou. Uma linha vermelha surgiu sob a pele, depois outra, formando um símbolo que eu conhecia das páginas de alquimia. Passei o polegar por cima como se pudesse apagar tinta fresca.

Não havia tinta.

Fechei a mão. A marca acompanhou o movimento.

Alguma coisa tinha mudado além dela.

Era difícil localizar. Eu sentia meus dedos, meu pulso, o peso do braço. E, junto disso, uma possibilidade que não tinha estado ali quando tentara acender o pavio.

Levantei.

A voz disse alguma coisa sobre concentrar. Eu a ouvi, mas já estava procurando onde testar sem atingir as coisas que guardava.

Fui até uma parte vazia da casa, de frente para uma parede baixa de pedra. Olhei atrás dela, conferi o espaço. Ergui a mão.

Na primeira tentativa, hesitei.

Na segunda, senti a força passar por mim.

O impacto arrancou uma lasca da pedra.

Recuei um passo.

A lasca bateu no chão. O som foi pequeno, concreto, impossível de confundir com uma sensação que eu desejava ter.

Fiquei olhando para minha mão.

Quis chamar Orfina.

Minha boca chegou a abrir.

Sentei antes que as pernas cedessem e permaneci ali, com o braço apoiado no joelho, esperando conseguir respirar direito. Havia poeira assentando sobre minha bota. A marca vermelha continuava na pele.

Eu tinha conseguido.

E não havia ninguém da minha casa para quem pudesse mostrar.


Comecei a separar o que levaria antes do amanhecer.

Os livros não cabiam todos. Escolhi os que continham referências úteis, embrulhei os demais contra a umidade e deixei os emprestados à parte para devolver. Precisaria de provisões, correias novas e informação sobre estradas.

O trabalho continuava existindo.

Pela primeira vez em muito tempo, eu conseguia imaginar o próximo passo sem vê-lo terminar naquela mesa.

Pus o volume da Voz na bolsa. Ajeitei a faca. Conferi o cordão sob a camisa.

A chave estava ali.

Fechei a mão marcada ao redor dela e fiquei um instante parado, sentindo os dentes do metal contra a palma.

Ainda não podia voltar para casa como tinha prometido.

Mas naquela manhã consegui abrir a porta do quarto e sair.

Voltar ao sumário