
Pipipi
A Casa Onde os Super-Heróis Visitavam
“Eu tive muita sorte quando era viva. Eu morava numa casa enorme, cheia de crianças, brinquedos e super-heróis.”
— Pipipi
Começar a história ↓Capítulo
A Casa
As lembranças de Pipipi começam no lugar onde ela aprendeu a brincar, esperar e cuidar.
A Casa
Pipipi não se lembra de ter chegado à Casa.
Na memória dela, simplesmente sempre esteve lá.
A Casa era enorme.
Tinha muitos quartos.
Muitas camas.
Muitas crianças.
Alguns adultos que trabalhavam lá usavam roupas engraçadas e carregavam coisas de um quarto para outro.
Pipipi conhecia os corredores muito bem.
Sabia quais faziam barulho.
Quais tinham janelas.
Quais levavam para lugares onde adultos diziam para esperar.
Quando uma criança nova chegava, Pipipi gostava de mostrar tudo.
Ela achava importante que ninguém ficasse perdido dentro da própria Casa.
As regras da Casa, segundo Pipipi
A Casa possuía regras estranhas.
Algumas eram óbvias.
Outras eram coisas que adultos aparentemente inventavam porque gostavam de complicar a vida das crianças.
Havia a Poção Ruim.
Havia a Máquina que Tira Foto por Dentro.
Havia a Garrafinha que Anda Junto.
Às vezes os adultos queriam saber números.
Às vezes queriam que Pipipi ficasse parada.
Às vezes diziam que uma coisa ia doer só um pouquinho.
Pipipi aprendeu muito cedo que “só um pouquinho” era uma unidade de medida completamente inútil.
Mesmo assim, quase sempre cooperava.
Depois reclamava.
Reclamar fazia parte do processo.
A Casa que recebia presentes sem fazer aniversário
Uma coisa excelente sobre a Casa era que brinquedos apareciam sem ninguém precisar fazer aniversário.
Caixas chegavam.
Sacolas chegavam.
Às vezes apareciam bichos de pelúcia.
Às vezes livros.
Às vezes coisas que ninguém sabia muito bem o que eram, mas crianças sempre encontram uma utilidade.
Pipipi não achava isso estranho.
Casas grandes provavelmente recebiam presentes.
Era assim que o mundo funcionava.
Os super-heróis
De vez em quando, super-heróis visitavam a Casa.
Princesas também.
Palhaços.
Músicos.
Gente fantasiada.
Uma vez apareceu até um cachorro que parecia trabalhar lá.
Pipipi nunca entendeu exatamente por que pessoas tão importantes tinham tanto tempo livre.
Mas não reclamava.
Os músicos eram especialmente bons.
Quando alguém tocava, a Casa ficava diferente por alguns minutos.
Os sons ruins pareciam menores.
As pessoas nos corredores paravam.
Algumas crianças conseguiam sair dos quartos.
Outras escutavam da cama.
Pipipi gostava de imaginar que a Casa era o melhor lugar do mundo para se apresentar.
A Pulseira do Clube
Pipipi tinha uma pulseira lilás.
Pequena.
Simples.
Ela via outras crianças usando pulseiras parecidas.
Então concluiu que aquilo era algum tipo de clube.
Pipipi gostava de clubes.
Gostava ainda mais da ideia de fazer parte de um que ocupava uma Casa inteira.
A pulseira virou uma das coisas que nunca queria perder.
As crianças que eram ruins em morar lá
Algumas crianças eram péssimas em morar na Casa.
Chegavam.
Ficavam um tempo.
Depois desapareciam.
Pipipi perguntava para onde tinham ido.
As respostas eram sempre meio vagas.
“Foi embora.”
“Foi descansar.”
“Agora não está mais sentindo dor.”
Pipipi juntou essas informações e chegou a uma conclusão simples:
elas tinham ido para casa.
Ela achava curioso.
Afinal, aquela também era uma Casa.
Minha mãe trabalhava demais
A mãe de Pipipi não morava na Casa o tempo todo.
Ela trabalhava.
Trabalhava muito.
Pipipi achava isso profundamente inconveniente.
Às vezes um super-herói aparecia e ela não estava.
Às vezes havia uma apresentação e ela chegava depois.
Às vezes Pipipi passava o dia inteiro guardando uma história incrível para contar e precisava esperar até a noite.
Quando a mãe finalmente aparecia, vinha cansada.
Pipipi reclamava:
“Você perdeu de novo!”
E a mãe normalmente respondia alguma versão de:
“Na próxima eu vejo.”
Pipipi acreditava.
Por que não acreditaria?
Sempre existia outra semana.
Outra visita.
Outra música.
Outro dia.
Outra próxima vez.
Minha mãe era meio burra
Essa é uma das histórias que Pipipi costuma contar rindo.
Segundo ela, a mãe era muito inteligente para algumas coisas e completamente incapaz de compreender o funcionamento de camas.
“Meu quarto tinha uma cama enorme.” “E minha mãe dormia sentada.”
Ela aponta isso como evidência incontestável.
Havia uma cadeira ao lado da cama.
Uma cadeira ruim.
Pipipi sabia que era ruim porque já havia sentado nela.
Mesmo assim, em algumas noites, acordava e encontrava a mãe ali.
Torta.
Com a cabeça caída para um lado.
Às vezes ainda segurando a mão dela.
Pipipi chegou a oferecer espaço na cama várias vezes.
A resposta era quase sempre:
“Eu estou confortável.”
Pipipi nunca acreditou completamente nisso.
Mas achava engraçado.
Adultos eram estranhos.
O melhor dia da vida de Pipipi
Se alguém pergunta qual foi o melhor dia que ela viveu, Pipipi não precisa pensar.
Ela sabe.
Foi:
O Dia em que Todo Mundo Faltou ao Trabalho
Já começou excelente porque a mãe estava lá desde cedo.
Isso por si só era raro.
Pipipi esperou algum momento em que a mãe olharia para a porta, perceberia o horário e sairia correndo.
Não aconteceu.
Depois chegou mais gente.
Um familiar.
Depois outro.
E outro.
Gente que Pipipi não via havia algum tempo apareceu no mesmo dia.
Aquilo obviamente significava alguma coisa.
Ela chegou a perguntar:
“É meu aniversário?”
Talvez alguém tenha respondido:
“Hoje pode ser.”
Pipipi adorou a ideia.
Não havia bolo de aniversário de verdade, mas isso era detalhe administrativo.
Todo mundo estava ali.
Ninguém parecia com pressa.
Ninguém precisava trabalhar.
Ninguém dizia que passaria mais tarde.
Talvez tenha tido música.
Pipipi lembra de música.
E lembra de uma coisa ainda mais importante:
a mãe assistiu até o fim.
Dessa vez ela não perdeu a apresentação.
Pipipi venceu.
Depois eu fiquei com sono
No fim daquele dia, Pipipi estava cansada.
Muito cansada.
A mãe perguntou se ela queria dormir.
Pipipi não queria.
Não porque estivesse com medo.
Porque não queria perder nada.
“Mas vocês vão embora.”
A mãe respondeu:
“Não vamos.”
Pipipi insistiu:
“Quando eu acordar vocês vão estar aqui?”
“Vamos.”
Isso resolveu o problema.
Ela podia dormir.
Pipipi segurou a mão da mãe.
Fechou os olhos.
E essa é praticamente a última coisa de que se lembra daquele dia.
Quando abriu os olhos novamente, alguma coisa tinha mudado.
Ela estava leve.
Não sentia dor.
Não precisava carregar a Garrafinha que Anda Junto.
E, mais importante:
“Eu sabia voar.”
Pipipi considera esse um final excelente.
Capítulo
O outro nome da Casa
As mesmas memórias continuam verdadeiras. O que muda é aquilo que elas significavam.
A Casa tinha outro nome
A Casa era um hospital.
Pipipi passou uma parte significativa da infância internada por causa de uma doença grave.
Não era uma criança completamente alheia ao que acontecia consigo.
Ela sabia que estava doente.
Sabia que os remédios eram necessários.
Sabia que havia dias em que o corpo não obedecia.
Sabia que certos procedimentos doíam.
Sabia que existiam crianças que conseguiam correr mais do que ela.
Sabia que os adultos ficavam preocupados quando alguns números mudavam.
Mas Pipipi era uma criança.
Ela conhecia fatos.
Não conhecia prognósticos.
Não conhecia estatísticas.
Não conhecia cuidados paliativos.
Não sabia diferenciar uma tentativa de cura de uma tentativa de aliviar sofrimento.
E ninguém conseguiu transformar em linguagem infantil uma verdade que até adultos tinham dificuldade para aceitar:
Pipipi não ficaria boa.
02 · O outro nome da Casa
A Casa tinha outro nome
A Casa tinha corredores, quartos, brinquedos e crianças. Também tinha outro nome.
A Pulseira do Clube não era de um clube
A pequena pulseira lilás que Pipipi usa até hoje era uma pulseira hospitalar.
Um objeto banal.
Uma identificação.
Nada mágico.
Nada exclusivo.
Nada criado para marcar amizade entre crianças.
Mas Pipipi viu muitas crianças usando pulseiras semelhantes.
E criou uma explicação que fazia sentido para ela.
O que, para um adulto, era burocracia hospitalar, para Pipipi virou pertencimento.
“Eu faço parte daqui.”
Talvez seja por isso que a pulseira tenha permanecido tão importante depois da morte.
Ela não preserva um documento.
Preserva a única casa da qual realmente se lembra.
Os presentes não apareciam por acaso
As caixas de brinquedos eram doações.
Muitas delas destinadas especificamente a crianças que passavam longos períodos internadas.
Talvez algumas chegassem em datas comemorativas.
Talvez outras viessem de instituições, comunidades ou desconhecidos que jamais conheceriam Pipipi pessoalmente.
Para Pipipi, brinquedos simplesmente surgiam.
Para os adultos, eram tentativas pequenas de devolver infância a um lugar onde a infância frequentemente precisava dividir espaço com exames, remédios e medo.
Pipipi estava correta sobre uma coisa:
às vezes aquilo realmente parecia aniversário.
Só que algumas daquelas crianças talvez não chegassem ao próximo.
Os super-heróis não vieram salvá-la
As princesas não eram princesas.
Os heróis mascarados não haviam acabado de salvar uma cidade.
Os palhaços não trabalhavam num circo secreto dentro da Casa.
Os músicos não estavam ali porque aquele era o melhor palco da região.
E o cachorro que “trabalhava lá” provavelmente fazia parte de alguma atividade terapêutica.
Eram voluntários.
Projetos sociais.
Artistas.
Gente disposta a vestir uma fantasia, carregar um instrumento ou simplesmente passar algumas horas junto de crianças que enfrentavam coisas que criança nenhuma deveria precisar compreender.
Pipipi dizia que conheceu muitos super-heróis.
Talvez essa seja uma das poucas interpretações dela que não precise ser corrigida.
A fantasia estava errada.
O heroísmo, talvez não.
A mesma memória, outro significado
Os super-heróis não vieram salvá-la
As fantasias não eram reais. O carinho, a presença e o heroísmo talvez fossem.
Algumas crianças nunca foram para casa
Essa é uma das memórias que muda completamente depois que se conhece a realidade.
Pipipi viu muitas crianças desaparecerem dos corredores.
Algumas receberam alta.
Voltaram para suas casas.
Retomaram vidas que haviam sido interrompidas pela doença.
Outras não.
Algumas das camas vazias pertenciam a crianças que morreram.
Quando Pipipi perguntava onde estavam, os adultos davam respostas incompletas porque ela era pequena, porque não sabiam o que dizer ou simplesmente porque estavam tentando protegê-la.
“Foi embora.”
“Foi descansar.”
“Agora não está mais sentindo dor.”
Pipipi encaixou todas essas respostas na única lógica que conhecia:
elas foram para casa.
Por isso não teve medo quando chegou sua própria vez de desaparecer daquele quarto.
Ela acreditava que era assim que a Casa funcionava.
Todos, cedo ou tarde, iam embora.
Memória · corredores
Algumas crianças nunca foram para casa
Pipipi conhecia os corredores e recebia as crianças novas como se a Casa fosse realmente dela.
O Dia da Poção Ruim
A Poção Ruim não era uma brincadeira inventada pelos adultos.
Era o nome que Pipipi deu ao tratamento que sabia que precisava receber, mesmo odiando o que vinha depois.
Talvez náusea.
Talvez fraqueza.
Talvez dor.
Talvez dias inteiros sem energia para brincar.
Não é necessário que Pipipi compreenda o nome médico exato para que sua lembrança seja verdadeira.
Ela lembra da textura.
Do gosto.
Do cheiro.
Da antecipação.
Do adulto dizendo que estava quase terminando.
Da recompensa depois.
Da mão que ela apertava.
Crianças muitas vezes não guardam a terminologia de uma doença.
Guardam o que ela fazia com seus dias.
A Garrafinha que Andava Junto
O objeto que Pipipi tratava como companheiro de corredor era parte de seu tratamento.
Soro.
Medicação.
Um suporte que precisava acompanhá-la quando saía do quarto.
Pipipi humanizou aquilo porque fazia parte da rotina.
Talvez tivesse até dado um nome absurdo.
Talvez reclamasse quando uma roda travava.
Talvez corresse com ele quando não deveria.
Na lembrança dela, era só mais uma característica estranha da Casa.
Na realidade, era uma das inúmeras formas pelas quais seu corpo precisava de ajuda para continuar funcionando.
“Minha mãe trabalhava demais.”
Pipipi estava certa.
A mãe trabalhava demais.
Só que Pipipi nunca soube por quê.
Não via contas.
Não via conversas médicas.
Não via o dinheiro indo embora.
Não via o esforço para conciliar trabalho com internações, consultas e emergências.
Não via o medo de perder o emprego ao mesmo tempo em que tinha medo de perder a filha.
Não sabia quantas vezes a mãe provavelmente chorou longe do quarto para conseguir voltar sorrindo.
Não sabia quantas vezes aquela mulher ouviu informações que nenhuma mãe gostaria de ouvir e, minutos depois, entrou no quarto como se o mundo não tivesse acabado um pouco.
Pipipi só sabia que a mãe às vezes chegava atrasada.
E que prometia:
“Na próxima eu vejo.”
Essa frase parecia simples porque todos ainda fingiam que existiria uma próxima.
A cadeira
A mãe não dormia sentada porque achava confortável.
Dormia sentada porque queria permanecer ao lado da filha.
Talvez depois de trabalhar o dia inteiro.
Talvez depois de horas falando com médicos.
Talvez porque voltar para casa significasse ficar longe demais caso alguma coisa acontecesse.
Então ficava.
Na cadeira ruim.
Perto da cama boa.
Pipipi acordava e ria daquilo.
Talvez essa seja uma das lembranças mais cruéis da história justamente porque não existe crueldade dentro dela.
Há somente uma criança achando engraçado que sua mãe prefira uma cadeira desconfortável.
E uma mãe cansada demais para explicar que a cadeira era o preço mais barato que pagaria para continuar ali.
Ficar também era cuidar
A cadeira
Uma cama boa ao lado. Uma cadeira ruim. E uma mãe que preferia continuar perto.
O Dia em que Todo Mundo Faltou ao Trabalho
Esse era realmente um dia diferente.
Só não pelo motivo que Pipipi imaginava.
Sua condição havia piorado.
O tratamento já não mudaria o que estava acontecendo.
Em algum momento, os médicos conversaram com a família.
Não havia mais promessa honesta de recuperação para oferecer.
Restava conforto.
Tempo.
Presença.
E a informação mais simples e mais impossível:
se alguém quisesse se despedir, deveria vir.
Foi por isso que a mãe não trabalhou.
Foi por isso que familiares apareceram no mesmo dia.
Foi por isso que ninguém tinha pressa.
Foi por isso que ninguém disse:
“Na próxima eu vejo.”
Porque os adultos no quarto sabiam uma coisa que Pipipi não sabia.
Talvez não existisse uma próxima.
“É meu aniversário?”
Não era.
Mas a pergunta provavelmente destruiu alguém naquele quarto.
Pipipi viu pessoas que amava reunidas.
Viu atenção.
Viu presentes ou pequenos agrados.
Viu música.
Viu gente tentando sorrir.
O cérebro infantil encontrou a explicação mais próxima que conhecia para uma reunião daquele tipo:
festa.
Se alguém respondeu:
“Hoje pode ser.”
não estava necessariamente mentindo para ela.
Talvez aquela família só tivesse decidido que as últimas horas de Pipipi não precisavam pertencer à doença.
Poderiam pertencer a Pipipi.
A última apresentação
Pipipi lembra que houve música.
O detalhe importante para ela não é a música.
É a mãe.
A mãe ficou até o final.
Durante boa parte da infância, Pipipi acumulou pequenas frustrações porque trabalho, dinheiro e cansaço roubavam da mãe momentos que ela gostaria de compartilhar.
Naquele dia, nada tirou a mãe da cadeira.
Nada fez olhar para o relógio.
Nada produziu a frase:
“Na próxima.”
Pipipi finalmente teve a plateia que queria.
Sem saber que aquele era o único motivo pelo qual ninguém ousaria sair dali.
Todo mundo ficou
O último dia
Pipipi finalmente teve a plateia que queria, sem saber por que ninguém ousaria sair dali.
“Quando eu acordar vocês ainda vão estar aqui?”
Talvez essa tenha sido uma das últimas perguntas de Pipipi.
Ela não queria dormir porque todo mundo finalmente estava junto.
A mãe prometeu ficar.
Não prometeu que Pipipi acordaria.
Não prometeu amanhã.
Não prometeu recuperação.
Prometeu somente aquilo que ainda conseguia cumprir:
“Nós vamos estar aqui.”
Pipipi dormiu segurando sua mão.
A família ficou.
A mãe ficou.
E Pipipi morreu sem descobrir que aquela era uma despedida.
Quando Pipipi acordou
Não havia dor.
Não havia máquinas.
Não havia tratamento.
Não havia agulhas.
Não havia a Garrafinha que Andava Junto.
Não havia necessidade de pedir para ninguém ficar.
Ela simplesmente estava leve.
Flutuando.
E, sendo Pipipi, sua conclusão não foi filosófica.
Não pensou sobre mortalidade.
Não perguntou aos deuses por que uma criança precisava morrer.
Não analisou a injustiça da própria vida.
Pensou:
“EU SEI VOAR.”
Talvez tenha sido exatamente assim que nasceu o fantasminha que existe hoje.
Não de uma compreensão da morte.
Mas da descoberta de que, pela primeira vez em muito tempo, nada doía.
Pela primeira vez em muito tempo, nada doía
Quando Pipipi acordou
Quando abriu os olhos novamente, Pipipi estava leve.
As duas metades da história
Pipipi não viveu uma mentira.
O hospital era um hospital.
A doença era grave.
Os tratamentos eram reais.
Sua mãe estava exausta.
Crianças morreram nos quartos ao redor.
Sua própria família foi chamada para se despedir.
Tudo isso é verdade.
Mas também é verdade que Pipipi brincou.
Que ganhou presentes.
Que conheceu amigos.
Que riu dos adultos.
Que esperou ansiosa por músicos.
Que gostou dos visitantes fantasiados.
Que foi cuidada.
Que foi amada.
E que seu último dia pode, de fato, ter sido um dos dias mais felizes de sua curta vida.
Pipipi não estava errada.
Pipipi estava vendo apenas metade da história.
A outra metade era composta por adultos tentando fazer com que ela continuasse sendo criança até o último momento possível.
Depois daquele quarto
Algumas coisas terminaram naquele quarto. Outras continuaram voando com ela.

Capítulo
O que ficou
Algumas coisas terminaram naquele quarto. Outras continuaram voando com ela.
O que ficou depois da morte
Pipipi continua cuidando.
Não porque tenha compreendido conscientemente todas essas coisas.
Mas porque foi assim que aprendeu amor.
Quando alguém está machucado, ela aproxima.
Quando alguém está com medo, ela tenta ocupar o espaço ao lado.
Quando alguém precisa tomar alguma coisa horrível, ela pode transformar aquilo numa brincadeira.
Quando alguém diz:
“Não precisa ficar.”
Pipipi tende a ficar mesmo assim.
Ela conhece, sem saber explicar, a diferença entre resolver um problema e não deixar alguém enfrentá-lo sozinho.
Os médicos não conseguiram impedir sua morte.
Sua família não conseguiu impedir sua morte.
Sua mãe não conseguiu impedir sua morte.
Nenhum dos super-heróis conseguiu impedir sua morte.
Isso não significa que falharam com ela.
Porque no momento em que já não havia nada a salvar...
ninguém foi embora.
A ferida que Pipipi nunca nomeou
Pipipi não demonstra grande medo da própria morte.
Talvez porque, para ela, morrer tenha parecido dormir depois de um dia muito bom e acordar sem dor.
Seu medo aparece de outra maneira.
Ela detesta a ideia de alguém estar sozinho quando precisa de ajuda.
Detesta chegar tarde.
Detesta descobrir que alguma coisa aconteceu enquanto ela não estava.
Insiste em acompanhar.
Insiste em conferir.
Insiste em cuidar.
Às vezes mais do que deveria.
Talvez exista dentro dela uma versão infantil da mesma promessa que ouviu naquela última noite:
“Eu vou estar aqui.”
Pipipi repete essa promessa para todo mundo sem perceber.
Pipipi e Dandelion
Dandelion e Pipipi possuem respostas diferentes para sofrimento.
Dandelion transforma dor em espetáculo.
Pipipi transforma dor em cuidado.
Ele procura a piada capaz de fazer alguém respirar entre duas lágrimas.
Ela procura a cadeira ao lado.
Por isso os dois podem funcionar tão bem juntos — e se irritar tanto.
Dandelion pode tentar esconder uma ferida com uma apresentação inteira.
Pipipi talvez espere a música acabar, aproxime-se e diga:
“Você está machucado.”
Dandelion responde:
“Estou dramaticamente ferido. É diferente.”
“Senta.”
“Pipipi—”
“Senta.”
Ela não precisa vencer a máscara dele.
Só precisa permanecer perto tempo suficiente para que ele não precise usá-la sozinho.
A pulseirinha
A pulseira continua no braço de Pipipi.
Pequena.
Lilás.
Simples.
Ela não precisa carregar nome, prontuário ou qualquer explicação legível.
Para Pipipi, é só a Pulseira do Clube.
Para quem conhece a história, é uma das últimas provas materiais de que aquela criança realmente esteve ali.
E talvez isso seja o que torna o objeto tão forte.
Pipipi olha para a pulseira e lembra de pertencimento.
Para quem conhece a história, a mesma pulseira lembra de tudo que ela nunca entendeu.
As duas interpretações são verdadeiras ao mesmo tempo.
O coração de Pipipi
A história de Pipipi não é sobre uma criança que descobriu que iria morrer.
Ela nunca descobriu.
Também não é sobre transformar doença em algo bonito.
Doença não é bonita.
Perder uma criança não é bonito.
O que existe de bonito é aquilo que as pessoas fizeram apesar disso.
Transformaram corredores em lugar de brincadeira.
Transformaram doações em presentes inesperados.
Transformaram voluntários em super-heróis.
Transformaram tratamentos em nomes que uma criança conseguia suportar.
Transformaram uma cadeira desconfortável em lugar de permanência.
E, no último dia, quando já não havia como prometer cura, prometeram apenas presença.
Essa promessa foi cumprida.
Pipipi dormiu acreditando que, quando acordasse, sua família ainda estaria lá.
Ela nunca descobriu se estavam.
Mas eles ficaram enquanto puderam.
E talvez seja por isso que, mesmo sem compreender a própria história, Pipipi carrega uma certeza para a eternidade:
Quando você não consegue salvar alguém, ainda pode ficar.
Pipipi diz que o melhor dia de sua vida foi aquele em que ninguém precisou trabalhar e todo mundo ficou com ela.
Ela está certa.
Só nunca soube por que todos estavam ali.









