# Nascida para conquistar

> **"Uma matilha não nasce quando alguém manda. Nasce quando alguém
> escolhe ficar."**

Antes de ser a grande e barulhenta Yllith, ela era conhecida como
**Sequoia Vermelha**, uma pequena aspirante a guerreira. Seu nome esse
que foi dado pela sua mãe seguindo os costumes típicos de suas raças. A
Sequeoia por si só não apenas uma árvore grande e forte, mas também
resiste ao fogo e às cicatrizes e pode permanecer em pé por muito tempo.

Era nessa simples comparação em que ela se baseava, sempre buscando
melhorar as suas habilidades e mostrar para todos que poderiam contar
com ela, apesar de seu jeito mais bruto.

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# A infância de Sequoia Vermelha

Ela nasceu na **matilha Andrômeda**, no pequeno clã Ycarus feito de
Kholos. Andrômeda é liderada por sua tia paterna, **Erva Fervorosa**,
irmã de seu pai. Andrômeda e as outras matilhas de seu clã eram o único
mundo que Sequoia conhecia: um lugar onde aprendeu desde cedo que força
não servia apenas para vencer batalhas.

Força era responsabilidade. E responsabilidade mantinha os seus iguais
vivos.

Era assim que Sequoia foi criada. Para ser uma boa guerreira ela deveria
saber caçar, proteger os seus, reconhecer quando lutar e,
principalmente, saber **por quem estava lutando**.

E ela adorava cada um desses ensinamentos dos quais lhe foram ensinados.
Alguns mais, outros menos, mas ainda sim os aprendeu.

Se ela ignorava reconhecer uma luta, isso era história para outro
momento.

Desde pequena, tinha uma inclinação natural para o combate. Era
competitiva, teimosa e tinha uma confiança que frequentemente
ultrapassava o bom senso. Se alguém dizia que determinada tarefa era
difícil, sua primeira reação era tentar fazê-la. Sua prima Acácia e seu
melhor amigo Dente de Junco viam isso em primeira mão.

Se alguém dizia que ela ainda era pequena demais para alguma coisa...

Ela tentava fazer aquilo duas vezes.

Erva Fervorosa precisou ensiná-la algumas vezes que ser forte não
significava necessariamente ser a primeira a entrar em uma briga.

Sequoia, naturalmente, levou bastante tempo para aprender.

Mas aprendeu.

E mostrou a todos o quanto ela tinha aprendido.

Com o passar dos anos, tornou-se uma guerreira cada vez mais competente.
Seu corpo cresceu, sua força aumentou e sua relação com a fúria ---
aquele estado em que seu instinto e sua força tomavam conta ---
tornou-se uma parte natural de seu estilo de combate.

E Sequoia gostava disso.

Gostava de ser forte.

Gostava de saber que poderia proteger alguém.

E, principalmente, gostava de saber que, quando chegasse o momento, sua
matilha poderia contar com ela para o que vier. Poderia demorar, afinal,
habilidade vem com muito esforço, mas ela conseguiria.

Ela seria uma boa líder no futuro.

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# A morte de seus pais

Quando Sequoia tinha **13 anos**, seus pais morreram em uma batalha
entre o seu clã e um clã que antes aparentava ser inofensivo localizado
mais ao norte. O alvo dos inimigos era a aldeia central, o lar da
matilha Cassiopéia. Os diversos guerreiros Kholos de Ycarus foram
enviados para combater os inimigos, mas algo estava diferente.

Os guerreiros sobreviventes trouxeram o corpos dos mortos para que
aqueles que quisessem dar o devido descanso aos seus familiares. O
ritual ocorreu como sempre, o consumo dos mortos enchendo os que ficaram
da esperança de que esses pudessem descansar.

Sequoia chorou um pouquinho. Sentiu falta deles, guardou todas as
lembranças deles consigo, tanto as boas quanto as ruins. Mas não passou
a enxergar a batalha como algo que havia roubado seus pais dela. Em sua
cabeça, seus pais haviam morrido fazendo aquilo que acreditavam ser
importante: **proteger a própria matilha.**

E isso se transformou em uma chama.

Se eles tinham sido guerreiros fortes o suficiente para dar a própria
vida pelos seus, então Sequoia queria ser forte o bastante para fazer o
mesmo.

Talvez até mais.

Foi nessa época que ela começou a usar as presas de seus pais como um
adorno. Não como troféus, mas sim como lembranças de quem eles foram.
Ela mesma confeccionou um colar com elas e passou a carregá-lo consigo
para suas caçadas pela matilha.

Sempre que sentia que não era forte o suficiente, tocava as presas. Era
o seu talismã. E com esse adorno ela lembrava:

> **"Eu ainda tenho muito para aprender."**

Erva Fervorosa e Javali Sereno tornaram-se ainda mais importantes para
ela depois disso. Seus tios nunca tentaram substituir seus pais e isso
foi muito importante para a pequena. Seus pais sempre tiveram um lugar
em sua vida e ninguém poderia substituir o que eles foram para ela.

Seus tios continuaram lá. Simplesmente continuaram sendo seus tios e
deram continuidade ao que já tinha sido iniciado.

Javali continuou treinando com ela, Erva quando necessário estava
brigando com ela quando precisava, cuidando dela quando necessário e,
ocasionalmente, tendo que impedir que sua sobrinha fizesse alguma
estupidez.

Sequoia respeitava profundamente os dois.

E ambos, apesar de conhecerem perfeitamente os defeitos da sobrinha,
sabia que havia algo especial nela. Sequoia não era uma intrusa no lar
de seus tios, não quando ela se dava tão bem com todos ali.

Ela era forte o suficiente para que no futuro, pudesse fazer algo
grande.

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# Nem tudo era perfeito

Os Kholos sempre souberam o que fazer com seus mortos.

Quando alguém da matilha morria, aqueles que permaneciam davam ao corpo
o devido destino. A carne era consumida pelos seus, enquanto histórias
sobre o falecido eram compartilhadas entre aqueles que o conheceram. Não
era um ritual de horror ou tristeza. Era uma última forma de
acolhimento.

O morto alimentava aqueles que continuariam vivendo.

E aqueles que continuavam vivendo carregariam sua memória.

Sequoia conhecia aquele ritual muito bem. Havia participado dele quando
seus próprios pais morreram e, desde então, presenciara outras
despedidas. Por isso, quando alguma coisa começou a dar errado, todos
perceberam.

Começou em uma matilha mais ao sul.

Um dos Kholos mais velhos havia morrido depois de adoecer por algumas
semanas. Não havia nada particularmente estranho em sua morte. Seu corpo
foi preparado, sua família realizou os ritos e tudo aconteceu como
deveria.

Até que, alguns dias depois, uma das pessoas que participara do funeral
sonhou com ele.

Isso, sozinho, não significava nada.

Era comum sonhar com aqueles que haviam partido.

Então outra pessoa teve o mesmo sonho.

Depois outra.

E outra. Foi se espalhando por entre os territórios e isso causou
preocupação. Não era porque era apenas um sonho, mas sim pelo que
acontecia depois.

Todas descreviam a mesma coisa.

O Kholo estava parado em algum lugar escuro.

Não dizia nada. Apenas olhava para elas.

Nos dias seguintes, os sonhos ficaram mais frequentes. Alguns começaram
a acordar com lembranças que não eram suas. Pequenos fragmentos de uma
vida que reconheciam pertencer ao morto: o gosto de uma caça feita
muitos anos antes, o caminho até um lugar onde nunca haviam estado, o
rosto de alguém que não conheciam.

Então começaram as vozes.

Nada agressivo.

Nada que ameaçasse aqueles que as ouviam.

Apenas palavras incompletas, pronunciadas quando ninguém mais estava por
perto.

A princípio, os mais velhos de Ycarus realizaram novamente algumas de
suas cerimônias.

Nada mudou.

Outros membros de Ycarus foram chamados.

Nada parecia errado com aquilo que havia sido feito.

O morto havia recebido seu descanso da mesma maneira que incontáveis
Kholos antes dele.

E ainda assim...

**alguma coisa havia ficado.**

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# Um estranho no território

Foi assim que **Ren**, um Tengu exorcista e viajante, chegou a Ycarus.
Os xamãs não gostaram da ideia de um forasteiro se aproximar assim, mas
eles não tinham mais escolhas.

Algo tinha que ser feito.

Sequoia tinha 18 anos quando o tal exorcista chegou. foi uma das
guerreiras encarregadas de acompanhá-lo pelo território. Depois de
investigar o caso, Ren concluiu que a manifestação era algo além do que
os Kholos esperavam de seu ritual: uma presença espiritual que havia se
agarrado às memórias deixadas pelo falecido e começado a reproduzi-las
como se fossem suas.

Enquanto Ren trabalhava para removê-la, Sequoia passou boa parte do
tempo fazendo perguntas --- não sobre exorcismo, mas sobre **o mundo
além de Ycarus**.

Ren contou sobre neve, oceanos, cidades enormes, povos diferentes e
lugares que havia conhecido durante suas viagens. Isso chamou a atenção
de Sequoia, especialmente por saber que outros existiam além dos Kholos.
Aquele homem pássaro por si só já era diferente.

Depois que a manifestação foi removida e os fenômenos cessaram, Ren
deixou Ycarus. Ele e Sequoia nunca foram amigos e jamais voltariam a se
encontrar; foram apenas duas pessoas cujos caminhos se cruzaram
brevemente.

Ele ajudou seu povo e talvez Sequoia guardasse uma dívida com ele. Se o
homem sabia dessa dívida? Dificilmente.

No fim terminou por ali.

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# A vontade de criar algo novo

Conforme crescia, uma ideia começou a aparecer na cabeça de Sequoia.

No começo era apenas uma fantasia boba de uma adolescente impulsiva.
Depois virou uma possibilidade que martelava sua cabeça enquanto
descansava aos pés de uma árvore com **Basalto e Acácia**, seus primos
alheios ao que se passava na mente dela.

Sequoia se lembrava das histórias contadas sobre neve, oceanos, cidades
enormes e povos diferentes. Aquilo se juntou a algo que Sequoia já
sentia: havia muito mais além das fronteiras de Ycarus.

E então aquela fantasia finalmente se tornou uma obsessão.

Ela queria **liderar uma matilha**.

Mas não Andrômeda Ela queria o seu próprio lugar, queria mostrar aos que
eram de fora que os Kholos estavam ali.

Sequoia amava sua matilha, sua tia, seus primos e as histórias dos pais.
Queria ver Andrômeda crescer e prosperar. Mas não acreditava que aquele
pudesse ser seu destino inteiro.

Queria conhecer outras terras, culturas e seres. Queria descobrir como
viviam, no que acreditavam e, naturalmente, **como lutavam**.

E, principalmente, queria descobrir se conseguiria fazer aquilo que vira
Erva fazer durante toda a vida.

Sequoia sabia lutar e proteger.

Mas será que conseguiria **manter pessoas unidas?**

Não queria herdar uma matilha pronta ou levar consigo parte de
Andrômeda.

Queria começar do zero.

Encontrar pessoas sem qualquer obrigação de segui-la e construir com
elas uma comunidade que permanecesse unida simplesmente porque seus
membros **escolhiam ficar**.

Algo totalmente novo.

**Algo dela.**

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# Partida

A decisão não veio depois de uma grande briga ou de uma traição. Não.
Tudo estava normal naquela manhã e Sequoia se lembrava bem desse dia. E
como poderia esquecer um momento tão importante de sua vida? Ali algo
novo tinha nascido.

Sequoia já era uma guerreira adulta e experiente o suficiente para
entender que continuar em Andrômeda significava permanecer sob a sombra
de pessoas que amava. Ela tinha a escolha de continuar ali e com anos de
esforço se tornar a melhor guerreira ali, com suas maneiras um pouco
mais violentas, mas que ainda sim se encaixavam na dinâmica de
Andrômeda.

Mas sempre existiria uma parte dela perguntando:

**"E se eu tivesse tentado?"**

Então, pelo começo da tarde, ela foi conversar com sua tia na casa que
ficava no centro da grande aldeia. Onde naquele momento todos os
ocupantes daquela casa estavam presentes. Trevo e Basalto estavam
sentados na frente, entre as moitas, com a pequena hiena caçando insetos
e seu primo focado em um grande livro velho, mas que continha magias
ancestrais de extrema importância para a história daquele local.

Falou com eles primeiro. Houve surpresa, ouve silêncio e talvez um pouco
de choro, mas não veio dela.

Em seguida ela entrou e encontrou Acácia se preparando para a reunião
que ocorreria pela noite, onde ela se juntaria com a mãe e as outras
líderes para discutir a situação de Ycarus. Era um encontro comum de se
acontecer pelo menos a cada duas semanas. Falar com a filha mais velha
da família foi ainda mais tranquilo, da maneira em que se espera
conversar com Acácia quando elas estavam fora das caçadas e campos de
treinamento.

E então vinheram os seus tios e foi aí que o nervosismos começou a
surgir. Era ali que ela finalmente se desprenderia dos melhores anos de
sua vida para lutar por algo novo e totalmente dela. Ela então se
ajoelhou de frente aos seus tios e com a cabeça erguida finalmente
falou:

> **"Eu quero ir embora."**

Erva Fervorosa não ficou surpresa. Não quando ela já tinha percebido que
sua sobrinha estava diferente nos últimos tempos.

> "Para onde?"

O mais assustador era que ela não tinha uma resposta boa o suficiente
para isso. Claro que ela tinha pensado em diversas formas de iniciar e
terminar essa conversa, mas nada a preparou para o momento em si.

> "Eu não sei ainda, mas eu quero criar minha própria matilha."

> "E você já encontrou os membros?"

> "Não."

> "Sabe onde vai encontrá-los?"

> "Não."

> "Sabe como vai liderá-los?"

> "...Não."

Sua tia deu a permissão necessária e a lembrou de que Ycarus sempre
estaria ali para ela. Andrômeda sempre estaria ali para a sua volta. Não
como uma integrante, não quando Sequoia tinha sua própria ambição agora

Estariam ali como aliados.

A saída daquela casa não foi com passos pesados e nem tinha clima de
luto. Sequoia estava de cabeça erguida e dando passos firmes quando
saiu. Ela estava pronta para ir embora e assim se dirigiu para a
fronteira.

Ela só fez uma última parada na matilha Cassiopéia antes de realmente ir
embora.

Ela procurou por seu amigo Dente de Junco e contou a ele. Não tinha
piada e nem risadinhas. Era silencioso. A despedida foi silenciosa.

Não teve abraço apertado, não teve lágrimas e nem promessas de voltar
tão rápido. Não parecia certo. Teve apenas um único gesto, um que ficou
marcado para os dois.

Um simples esfregar de testas.

E então ela partiu. Equipamentos, vontade e um sonho.

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# Sequoia Vermelha fica para trás

Na hora de partir, existe uma última coisa que ela decide fazer.

Ela não leva consigo os símbolos de pertencimento à Andrômeda.

Não porque tenha vergonha deles.

Mas porque quer descobrir quem é **sem que ninguém a reconheça primeiro
como filha de alguém, sobrinha da líder ou membro de uma matilha
específica**.

Ela quer que, quando alguém a conhecer, conheça **ela**.

Então Sequoia escolhe um novo nome:

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# **Yllith.**

O antigo nome, entretanto, não desaparece com a nova. Ela continua
carregando **Sequoia Vermelha** consigo porque nada vai apagar suas
raízes.

Talvez, para outras pessoas, Yllith seja apenas Yllith e pronto.

Mas quando pensa em sua infância, em seus pais ou em Erva Fervorosa, ela
ainda é Sequoia Vermelha.

É o nome que sua mãe escolheu.

E Yllith jamais jogaria isso fora.

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# A futura líder

Ela tem um objetivo gigantesco, uma confiança absurda e absolutamente
**nenhum membro** além dela mesma. Mas isso não a incomoda ainda porque
ela sabe que um dia vai encontrar as pessoas certas.

Não quer pessoas que obedeçam porque ela é maior, mais forte ou porque
se autoproclamou líder.

Ela quer encontrar pessoas que **escolham ficar**.

Talvez essa seja uma das coisas que ela ainda não compreende
completamente sobre liderança.

E se alguém rir da ideia?

Yllith cruza os braços e mostra os dentes em um sorriso que pode ou não
ser assustador.

> **"Você está rindo agora, mas vai ver o quão grande eu vou me
> tornar."**
